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Uma ordenação na fé inculturada

A preparação

Desde 2009, a comunidade de São Gabriel se organizava para os preparativos da ordenação presbiteral do diácono Reginaldo Lima Cordeiro. E começou um trabalho dedicado dos salesianos da obra: Pe. Felipe, Sr. Tomás, o assistente Rogério, Pe. Genésio. Eles começaram a pensar na acolhida pela casa. Os passos iniciais cresceram em entusiasmo com a ação sintonizada entre os salesianos e as salesianas animadas pelas irmãs Claudina e Giustina, e todas as Filhas de Maria Auxiliadora da duas comunidades que lá atuam. Logo veio a comunidade católica da cidade. Foram convocadas as lideranças comunitárias. Lideranças governamentais e militares foram acionadas. Comunidades distantes foram convocadas, como Santa Izabel (com um grupo organizado pelo Pe. Justino) e Taraquá, Iauaretê, de onde vieram entre outros, o Pe. Nilson, os assistentes Franciclei e Giordano e os três aspirantes internos do Centro de Formação Indígena. Para somar forças, o coadjutor Joel desceu de Marauiá para o serviço das conduções. O Pe. Sinval chegou para agilizar os preparativos finais da liturgia e da ornamentação do ambiente, no Ginásio da Diocese. Aí novamente a comunidade salesiana, as salesianas e os jovens, os escoteiros porfiaram em dedicação até altas horas da noite.

O convite, feito de Roma, ao Bispo Dom Edson foi surpresa pois, desde sua ordenação episcopal, ele se perguntava quando presidiria sua primeira ordenação e calculava longos anos de espera. Semanas antes do evento, o próprio diácono Reginaldo foi para São Gabriel e realizou celebrações em várias comunidades. O povo foi preparado. A cidade entrou em expectativa.

A delegação de Manaus foi formada pelo Padres Benjamim, Chicão, Bené, Daniel, o Pe. Zuchetti, pela secretária Josely, Zeca (filmagens) e o André (junto com Pe. Zuchetti: vindos da Itália). Mais alguns: o Pe. João Neto, da Inspetoria de Mato Grosso, a professora Meire da FSDB e seu esposo Roberto. Pe. Jefferson veio de Porto Velho, ele que fora formador do ordenando em anos anteriores. Pe. Bruno Bianchi precedeu a todos, em dois dias. Presente também o padre João Paulo, que fora seu assistente de noviciado. Também chegaram, em longa viagem de barco expresso, a ir. Carmelita e a ir. Neli para reforçar a fraternidade salesiana, A hospedagem dos vindos de fora aconteceu na casa salesiana e na residência do Bispo. Experiência de preparação marcante foi a pregação do retiro espiritual realizada pelo mesmo Dom Edson, dias antes.

Primeiro momento – o ritual de benzimento dos Pino Mahsã

Não aconteceu na igreja, mas no salão de reunião do Centro Juvenil. Foi o momento cerimonial da cultura dos arapaso de antiga tradição. Presente uma grupo selecionado pelo ordenando, para evitar possíveis leituras preconceituosas ou posturas de desrespeito ao ritual, cerca de 50 pessoas. Decorreu das 7h30 às 10h, com a mesma assistência inicial. Atenção permanente. Respeito total. O ritual do benzimento aconteceu em vários momentos. Foi explicado em lingua indígena com tradução em português. Todos os familiares com pinturas rituais no rosto na marca própria da etnia arapaso.

No primeiro momento, foi narrado o mito das origens dos filhos da cobra-canoa. Daí a origem do apelido de Pica-Pau, em linguá indígena Pino Mahsã. O segundo momento ritual: a defumação; feita pelo pajé com o incenso sincanta ao som do Yapurutu. para expulsar os espírito maus. O terceiro momento foi o da pintura ritual da face do Reginaldo. Logo em seguida, ele foi entregue ao pajé que lhe deu alguns conselhos na língua da etnia; em seguida, o pajé entregou o cigarro benzido aos pais que completaram o benzimento. Logo após, a casula, a estola, a túnica, o cálice e a patena receberam o sopro dos cigarros para também serem abençoados. Finalmente. os pais entregaram os objetos benzidos ao Reginaldo que recebeu um cocar, um colar de penas e a canoa (piro yukusi). O silêncio e atenção dos presentes eram totais.

Recém-benzido, agora era considerado apto e protegido com o nome de Pinó Kuhtiró. Estava pronto para ser ordenado sacerdote. Os familiares dançaram o ritual final ao redor do irmão benzido ao som do mawaco. O último momento foi a partilha de alimentos regionais fartamente distribuídos aos presentes; toda a alimentação foi preparada pelos familiares. Então veio a homenagem de 19 canções e danças indígenas, bem ensaiadas.

O ritual é muito mais rico e com muitos detalhes simbólicos que escapam a um olhar de outra cultura. Mas para o Reginaldo, seus pais e seu povo, foi um momento sagrado, reafirmação de identidade, celebração preservada de olhares indiscretos e possivelmente incrédulos.

A ordenação presbiteral

No dia 15, uma chuvinha de manhã cedo preocupou, mas terminou por aliviar a temperatura quente dos dias anteriores. Às 7h30, a comunidade católica já estava presente, rostos predominantemente indígenas. Cálculo de 1500 a 2 mil pessoas. Entre os jovens, brilhou a presença do grupo de escoteiros da cidade em seu novo uniforme preto e vermelho. Entre as autoridades, destaque para a presença do general comandante da região com sua esposa e um pelotão de jovens soldados indígenas uniformizados, e a pessoa do prefeito municipal (também indígena) e sua esposa. Aos olhos de todos, chamava atenção a bela ornamentação com artesanato indígena, com destaque para os "candelabros" de cestaria regional. No chão, como passarela, um tapete de talas e plumas confeccionado pela família. A comunidade se desdobrou em dedicação.

Para tudo acontecer bem, o Pe. Sinval orientou e vivenciou zeloza e dedicada coordenação geral. Contou com o apoio cerimonial do Franciclei e do Giordano.

Na procissão de entrada: os coroinhas da catedral, os seminaristas diocesanos,14 padres salesianos, quatro padres Missionários do Sagrado Coração, o capelão militar, dois padres padres seculares e Dom Edson.

A mesma procissão de entrada teve um momento simbólico especial: a entrada de uma canoa que trazia uma criança indígena levando o Lecionário das Leituras; à sua frente, os passos cadenciados dos músicos indígenas tocando as flautas rituais som do mawaco.

Após o canto de entrada, em português, aconteceu um ritual indígena com som de flautas sagradas tocando o som do Yapurutu. e a incensação com o incenso chamado sincanta, gesto feito por duas indígenas, em vasos que expeliam intenso incenso, substituindo, com maior praticidade, o tradicional turíbulo.

O bispo saudou a assembleia nas três línguas oficiais do município: tucano, língua geral e baniwa.

O canto do Glória foi o conhecido Ekatirã, vivamente participado.

O salmo de meditação também foi recitado em três línguas.

Alguns pontos significativos da homilia do Bispo: a centralidade do Bom Pastor, amor misericordioso e compassivo; sua surpresa diante do convite do Reginaldo enviado de Roma; um fato da vida de Dom Hélder em referência ao Pe. Cícero (grande comoção do Pe. Chicão), expressões como “Sem a Palavra de Deus, um sacerdote nada tem a dizer”, “Imitamos os santos para seguir Jesus”, “padre não só como homem que trabalha em equipe, mas como homem de equipe”; apelou a que o ordenando não esquecesse suas origens na comunidade de Gebari e cultivasse o carinho atenciosos pelas outras 23 etnias do Rio Negro.

A apresentação do ordenando ao Bispo foi feita pelo Pe. Benjamim que, 17 anos antes acolhera o Reginaldo no Centro de Formação Indígena de Iauaraté: suas palavras foram pura emoção.

Durante o longo ritual de ordenação; atenção especial mereceram a entrada do cálice e da pátena pelo Pe. Zuccheti e pela irmã Neli; a acolhida do ordenado pelos demais presbíteros, feita entre lágrimas; a vestidura pelos pais, Sr. Marcelino e dona Júlia. No ritual eucarístico, falou muito a apresentação da oferendas, com música das flautas rituais indígenas e um grupo de crianças indígenas tocando maracás; também, o padre Reginaldo foi honrado com um cocar indígena que confere legitimidade e autoridade.

Tudo decorreu em total tranqüilidade e grande ordem, sob as indicações precisas do Pe. Sinval e a presença atenta dos coroinhas e e a ajuda preciosa do Franciclei e Giordano.

No pós-comunhão, a única homenagem foi feita pelo Israel, jovem indígena, ex-salesiano que cantou uma sua composição em tuiuca, canto que remetia às raízes espirituais dos antepassados e que fala de fé e de cura interior e proteção.

As primeira palavras do neo-sacerdote foram um grande agradecimento à seus pais, seus familiares, à Família salesiana, às autoridades civis e miliares, ao prefeito que foi seu professor; agradeceu nominalmente vários salesianos que participaram de seu processo formativo; reafirmou várias vezes sua clara consciência de ser um sacerdote salesiano.

O almoço festivo

O almoço foi preparado para convidados escolhidos: os familiares, os salesianos, as salesianas, alguns amigos, os aspirantes de Iauareté, o prefeito e a esposa. O almoço aconteceu no salão de recepção do CIMARNE, dos oficiais do exército, uma cortesia do general-comandante. Cardápio sóbrio, mas abundante. O som ambiental veio de músicas indígenas executadas com grande brilhantismo pelo Israel, que tocou teclado e cantou belas composições suas.

A primeira Missa

Aconteceu no dia 15, à noite, na catedral. Templo lotado. Liturgia bem preparada e participada. Homilia substancial do Pe. Benjamim, convocando o Pe. Reginaldo a ser um padre centrado em Deus, padre de grande vida interior, homem movido pela fé; um sacerdote salesiano animado pelas palavras de Mamãe Margarida, sacerdote plenamente indígena; sua ordenação como um marco histórico na vida da Inspetoria: os novos missionários já não vindos de fora, de longe, mas nascidos na mesma região, na mesma inspetoria. Homenagens: elogiosas palavras da professora Meire e saudação breve e bem emotiva de sua jovem sobrinha.

Após a missa, a comunidade presente participou de fraterna recepção nas dependências do Colégio Dom Pedro Massa.

A segunda Missa

Aconteceu no dia 16, na igreja Dom Bosco, patrono da comunidade do mesmo nome, animada pelos Padres do Sagrado Coração. Presidiu o Pe. Reginaldo. Concelebraram 10 padres. Homilia do Pe. Bené. Homenagem final com coreografia das jovens da comunidade.

Após a celebração, a comunidade paroquial ofereceu um coquetel regional à base de gostosa quinhapira e saboroso beiju, preparados com todo esmero.

O que foi que vocês viram?

Vivemos uma experiencia espiritual inesquecível. Um profundo encontro cultural: “As Boas Novas das culturas indígenas se encontram com a Boa Nova de Jesus”. Repito o Pe. Benjamim: Parabéns, Inspetoria Salesiana Missionária da Amazônia e parabéns, Igreja no Rio Negro!

“Seja feita a vontade do Senhor” (At 21, 14) E assim será! 

* Padre Bené Castro, SDB, pertence à Inspetoria São Domingos Sávio de Manaus, AM; atualmente é encarregado do Pré-noviciado e membro da Comissão Inspetorial de Comunicação (CIC)

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