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SABER JEJUAR NUMA SOCIEDADE FAMINTA

Por Pe. João Mendonça, sdb

O tempo quaresmal nos exorta a jejuar. Fazer o esforço de deixar aquilo que é demais, que engorda demais, que sufoca demais, que prejudica demais. É um tempo de purgatório. Purgar, com o fogo da misericórdia de Deus os excessos. E nossos excessos são muitos, às vezes até contraditórios com nossas crenças.

No Antigo Testamento o jejum era acompanhado também com as vestes. As pessoas tiravam a roupa cotidiana e se revestiam de sacos e se cobriam de cinzas. Até os animais eram assim revestidos. Era um sinal visível de algo que transcendia ao rito e ao gesto: o desejo de ser ouvido e visto pela compaixão divina. No Novo Testamento esta prática muda. A partir da cruz de Cristo os cristãos começaram a se configurar à cruz, como bem disse São Paulo: “Estou pregado na cruz com Cristo. Ele vive em mim” (Gal 2, 19-20). Esta forma nova e invulgar passou a ser o critério do jejum para nós cristãos, sem, é claro, anular as práticas antigas. Tanto é assim que recebemos as cinzas no início da Quaresma, porém, não como benção, mas como sinal externo de penitência. O problema é que muitos procuram as cinzas como benção ou algo que os possa livrar de algum malefício. Cinza é sinal de que reconheço minha iniquidade, meus pecados, minha fragilidade e quero recomeçar, nascer de novo (Sl 50).

O jejum, por conseguinte, não é uma prática apenas de renúncia de alimentos, mas ajuda a enfraquecer as mentiras secretas, as forças do mal e as tentações oferecidas pelo demônio, pois, o diabo não oferece coisas ruins, muito pelo contrário, ele oferece no interior de nossos segredos a abundância (pão), o domínio (poder) e o glamour (ganância). São tentações fortes e sedutoras de um ser astuto como a serpente.

Jejuar das tentações é penetrar em nosso deserto interior, no qual está a árvore do bem e a árvore do mal. Elas estão plantadas em nossas consciências e somente Deus tem acesso. O verdadeiro jejum é o saber renunciar aos sacrifícios às divindades que cultuamos na conjuntura atual: desigualdades, indiferença, egoísmo, corrupção, omissões, morte, dinheiro. Todas estas coisas começam dentro de nós, na árvore do mal e do veneno da serpente. O resultado do jejum virá na medida em que a água recebida no Batismo nos purifique, que a unção nos torne verdadeiros profetas, sacerdotes e reis e membros de um povo que caminha no exilio permanente até o encontro definitivo com Deus Pai criador.

O jejum também se expressa na simbologia usada pelo profeta Joel que exorta a “rasgar o coração e não as vestes” (Jl 2,13), pois as vestes podem ser novamente costuradas, porém, o coração rasgado e dilacerado dificilmente poderá ser consertado. Rasgar é arrancar desta máquina que bate em nosso peito todo orgulho, ódio, rancor, maledicência, desprezo que tornam impuro o sangue e podem matar com um colapso de insensibilidade. Por isto, São Paulo radicaliza as palavras de Joel quando diz: “Reconciliai-vos com Deus” (2Cor 5,20). Basta de pedir a Deus que resolva tudo, que faça milagres. É preciso fazer a vontade de Deus. Para isto, precisamos estar reconciliados conosco, com os irmãos e irmãs e com o próprio Deus. Vivemos numa época em que a busca de curas supera a busca da vontade de Deus. Vamos a ele com nossas fichas de negociação. Eu te prometo isto e, em troca, quero aquilo. É o comércio religioso que enoja certamente o coração de Deus. São as gorduras e os sacrifícios que Deus rejeita, pois o que Ele realmente quer é que o nosso coração seja de carne e não de pedra.

A sociedade é faminta do pão de justiça, pão de solidariedade, pão de liberdade egoísta, pão da ganância, pão da aparência. No entanto, o verdadeiro pão deve ser aquele que sacia a fome de Deus e somente Deus pode nos dar deste pão. Jejuar, portanto, é um compromisso quaresmal que enfraquece a força da maldade e robustece o desejo do reino definitivo. Eis o dilema da ação evangelizadora. Que o jejum nos transforme em nossas criaturas.

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