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Reitor-Mor: Discurso de abertura do CG26

"Desejo vivamente estar convosco, para vos mediar alguma dádiva espiritual, a fim de serdes confirmados, ou melhor, a fim de que todos nós sejamos reconfortados, eu por vós e vós por mim, graças à fé que nos é comum" (Rm 1,11-12)

1. Cumprimento aos convidados

Eminência Reverendíssima, Card. Franc Rode, Prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, Eminência Reverendíssima, Card. Raffaele Farina, Bibliotecário e Arquivista da Santa Igreja Romana, Excelentíssimo D. Gianfranco Gardin, Secretário da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, Excelentíssimo D. Gino Reali, Bispo de Porto e Santa Rufina, Excelentíssimos Bispos Salesianos, Reverendíssima Ir. Enrica Rosanna, Subsecretária da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, Gentilíssima Madre Antonia Colombo, Superiora Geral do Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora, Caríssimos Responsáveis dos vários Grupos da Família Salesiana, Reverendíssimo P. Pietro Trabucco, Secretário Geral da União dos Superiores Gerais, Em nome de toda a Assembléia capitular, agradeço-vos de coração pela presença neste momento tão significativo para a Sociedade de São Francisco de Sales e vos expresso o quanto é agradável para todos nós a vossa participação, que vem honrar o início do nosso Capítulo Geral XXVI e encorajar o nosso trabalho.

2. Boas-vindas aos Capitulares

Caríssimos Irmãos Capitulares, Inspetores e Superiores de Visitadorias, Delegados inspetoriais, Observadores convidados, vindos do mundo inteiro para participar desta importante assembléia da nossa amada Congregação.

A todos vós desejo dar as boas-vindas com o coração de Dom Bosco. Senti-vos em vossa casa e à vontade! A casa de Dom Bosco é a vossa casa. Também a Casa Geral é a casa de Dom Bosco, como o foi a de Valdocco, onde quisemos em espírito de oração e contemplação dar início aos primeiros momentos desta Assembléia; como o foi a casetta dos Becchi, em cuja fachada está a inscrição com as palavras de Dom Bosco: "Esta é a minha casa".

O tema central do Capítulo "partir de Dom Bosco" é um convite dirigido à Congregação inteira. Ele nos levou aos lugares onde o nosso amado pai e fundador, dócil à voz e à ação do Espírito Santo, deu início e desenvolvimento ao carisma do qual somos herdeiros, fiadores, testemunhas e comunicadores. Os Becchi e Valdocco são o berço da nossa experiência carismática. Ali se encontra a nossa identidade, porque ali todos nós nascemos como canta o salmista cheio de alegria pensando na cidade de Deus: "lá todos nós nascemos; em ti estão as minhas fontes todas" (Sl 86).

Nosso DNA é o mesmo de nosso pai Dom Bosco, cujos genes são a paixão pela salvação dos jovens, a confiança no valor de uma educação de qualidade, a capacidade de envolver a muitos a ponto de criar um vasto movimento de pessoas capazes de compartilhar, na missão juvenil, a mística do "da mihi animas" e a ascese do "cetera tolle". Ao mesmo tempo, eu vos expresso os mais vivos votos de que o nosso Capítulo seja o ponto inicial para partir de Dom Bosco e chegar a 2015 quando, alegres e reconhecidos, celebraremos o segundo centenário do seu nascimento.


3. O Capítulo Geral

Desejei colocar no início deste discurso de apertura a citação de São Paulo aos Romanos, porque me parece expressar o que trago no coração e o que espero desta assembléia. Sendo verdade que todo Capítulo Geral é um acontecimento que supera na substância a só realização formal do que está prescrito pelas Constituições, com maior razão, acredito que deva sê-lo o CG26. Ele será um evento pentecostal, que terá o Espírito Santo como principal protagonista; ele será realizado entre memória e profecia, entre reconhecimento fiel às origens e abertura incondicionada à novidade de Deus. E todos nós seremos sujeitos ativos, com as nossas responsabilidades e expectativas, ricos de experiência, disponíveis à escuta, ao discernimento, à acolhida da vontade de Deus sobre a Congregação.

Quem nos convoca é o próprio Deus, que continuamente e em todos os tempos chama e envia os seus profetas, para que haja vida em abundância para todos. Os chamados de Deus exigem generosidade, dedicação plena e disponibilidade também ao sofrimento para "dar a vida"; uma vida não nasce sem "as dores do parto". Deus não convida a consolidar situações de estagnação ou até mesmo de morte, mas envia o Seu Espírito para dar novamente vida e vitalidade, transformar as pessoas e, através delas, renovar a face da terra.

Não posso deixar de recordar a este ponto a penetrante visão de Ezequiel sobre o povo de Deus exilado, sem Rei, sem Templo e sem Lei. Sobre os ossos ressequidos, sobre esse povo morto, Deus envia o Espírito e eis que reaparecem os nervos e cresce a carne. Ele recobre esses corpos de pele e sopra o seu hálito de vida (cfr. Ez 37,8ss.). A novidade que Deus quer oferecer ao mundo pode chocar-se, certamente, com a resistência psicológica e espiritual a "renascer do alto" (Jo 3,3), como foi para Nicodemos. O que se nos pede, porém, é a disponibilidade exemplar de Abraão que se deixa guiar pelo Deus da promessa (cf. Gn 12,1-3); ele não se apega nem mesmo ao filho tão esperado e chega à renúncia de Isaac, não hesitando em sacrificá-lo desde que não perca o seu Deus. Sempre nesta lógica de disponibilidade, modelo perfeito de abertura iluminada é a Virgem Maria, pronta a deixar o próprio projeto para assumir o de Deus (cf. Lc 1,35ss.)

O CG26 mira a algo de novo e inédito. Impele-nos a urgência de retornar às origens. Somos chamados a buscar inspiração na mesma paixão apostólica de Dom Bosco. Somos convidados a beber nas fontes de onde nasceu o carisma e, ao mesmo tempo, a abrir-nos com audácia e criatividade a modalidades novas a fim de poder exprimi-lo hoje. Para nós, é como descobrir novas facetas de um mesmo diamante, o nosso carisma, que nos permitem responder melhor às situações dos jovens, compreender e servir as suas novas pobrezas, oferecer novas oportunidades ao seu desenvolvimento humano e à sua educação, ao seu caminho de fé e à sua plenitude de vida.

É importante que cada um de nós, caros Capitulares, entre em sintonia profunda com Deus, que nos chama "hoje", para que a inspiração e a força do seu Espírito não sejam contristadas no coração, emudecidas nos lábios e deformadas em sua lógica (cf. Ef 4,30). Tudo isso significa que o esforço a quem somos chamados é o de abrir o mais possível o arco da nossa receptividade "espiritual", para descobrir no profundo de nós mesmos a vontade de Deus em relação à Congregação e para conformar sempre mais o nosso pensar e nosso falar à Palavra de Deus. As palavras, que cada um de nós se sentir chamado a pronunciar, levem o menos possível o peso da carne, porque "da carne nasce carne e do Espírito nasce Espírito" (cf. Jo 3,16).1


4. Atitudes de participação plena ao CG26

Como viver então a experiência capitular de forma construtiva? Que tipo de empenho assumir da parte de cada Capitular? Com quais atitudes participar do Capítulo Geral?

Cultivando o espírito profético

A consciência de sermos convocados por Deus desperta em nós o sentido de dependência em relação a Ele e a aceitação profunda da missão que Ele nos confia. Isso nos exige uma escuta contínua, humilde, obediente. Diversamente de um congresso ou de um encontro, onde prevalece freqüentemente a dialética, aqui nos encontramos a viver um momento de discernimento e de confronto sobre a vida da Congregação e sobre o nosso carisma, que é um grande dom de Deus para a Igreja e para os jovens.

Não podemos assumir o papel de expectadores. O que transformaria o evento em simples cronologia; dele não ficaria senão alguma vaga lembrança, incapaz de criar autênticos dinamismos transformadores da história. Esta é justamente a missão do profeta: movido pelo Espírito de Cristo e portador da Palavra de Deus, ele é capaz de transformar a história. A fim de que tudo isso se realize em nossa experiência, o CG26 propõe-nos um envolvimento pleno de nossas pessoas. Somos todos chamados a viver este acontecimento com responsabilidade, colher a sua importância vital e reavivar todos os dias o interesse e a disponibilidade para o caminho que o Espírito nos leva a trilhar.

O Capítulo será significativo se deixar de ser um puro "fato" que acontece no tempo e no espaço, para ser uma "experiência" profunda que toca antes de tudo a nossa mesma pessoa. E a tocará se, na realização do Capítulo, formos capazes de encontrar a Deus. A partir desse momento começará a regeneração e o renascimento; poderemos, então, comunicar a todos os irmãos da Congregação "o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplamos e o que as nossas mãos apalparam" (1Jo 1,1).

O crescimento pessoal e o serviço à Congregação, colocados em jogo na experiência capitular, caminham juntos. Ouve-se dizer, muitas vezes, que a participação num Capítulo Geral representa uma experiência intensa de formação permanente; e é verdade. Entretanto, pessoalmente preferiria falar de uma experiência carismática no sentido mais profundo do termo, ou seja, de uma experiência do Espírito e, em se tratando de uma assembléia, de um verdadeiro Pentecostes comunitário.

Não se trata apenas de não decepcionar os irmãos, mas de não malbaratar o "tempo propício", o "kairós", de não decepcionar, portanto, a Deus e aos jovens, os dois pólos que configuram a nossa identidade, ao redor dos quais gira a nossa vida e a cujo serviço se justifica o nosso ser.

Atuando o discernimento

Justamente porque o Capítulo não é um congresso, mas um tempo de discernimento, deve-se vivê-lo com essa atitude, que exige preparação, reflexão séria, oração serena e profunda, contribuição pessoal, consciência da própria adesão, escuta de Deus e de si mesmo.

A partir desta perspectiva tanto as jornadas de espiritualidade salesiana vividas nos Becchi e em Turim, quanto os Exercícios espirituais, como os dois dias de apresentação da Congregação através dos Setores e das Regiões contribuíram para criar este clima espiritual. A atmosfera ideal na qual Deus atua as maravilhas e conduz a história, também a da nossa Congregação, é a caridade: "Ubi caritas et amor, Deus ibi est".

O Espírito atua, sopra o seu hálito de vida e espalha suas chamas de fogo lá onde há uma comunidade reunida no nome de Cristo e unida pelo amor. É a comunhão dos corações que nos convoca ao redor do mesmo projeto apostólico, o de Dom Bosco, e torna possível a unidade na diversidade dos contextos, das culturas, das línguas.

Caminhando com o Deus da história

A situação do mundo e da Igreja pede-nos, hoje, para caminhar com o Deus da história. Não podemos renunciar à nossa vocação de ser, como consagrados, a ponta de diamante do Reino de Deus, as sentinelas do mundo e os sensores da história. A nossa vocação de "sinais e portadores do amor de Deus" (Const 2) impele-nos a ser aquilo que o Senhor espera de todos os seus discípulos: "sal da terra e luz do mundo" (cf. Mt 5,14). Eis as duas imagens utilizadas por Jesus para definir e caracterizar os seus discípulos. Ambas são muito eloqüentes e nos dizem que pôr-se na seqüela de Cristo não é determinado tanto pelo "fazer", quanto pelo "ser", ou seja, é mais questão de identidade do que de eficácia, mais questão de presença significativa do que de atuações grandiosas.

Também aqui, o que importa não é tanto a renovação da Congregação e o seu futuro, quanto a paixão por Jesus e o Reino de Deus. Esta é a nossa esperança. É aqui que se encontra a vitalidade, a credibilidade e a fecundidade do nosso Instituto. Com efeito, a abertura aos questionamentos, às provocações, aos estímulos e aos desafios do homem moderno, em nosso caso dos jovens, liberta-nos de toda esclerose, atonia, redução de velocidade, aburguesamento e coloca-nos em caminho "no passo de Deus". Evitaremos, então, voltar-nos para trás, tornando-nos estátuas de sal, ou nos iludirmos em fugas estéreis para frente, não conformes à vontade de Deus.

Elemento típico de Dom Bosco e da Congregação foi sempre a sensibilidade histórica, e hoje mais do que nunca não podemos descuidar dela. Ela nos tornará atentos diante das urgências da Igreja e do mundo. Far-nos-á "caminhar" e "sair" em busca dos jovens. O que deverá se traduzir num documento capitular capaz de encher de fogo o coração dos irmãos. Esse texto será uma verdadeira carta de navegação nos anos venturos. Eis porque é importante a leitura dos "sinais dos tempos", alguns dos quais eu quis indicar nos ACG 394 na carta de convocação do CG26.

Construindo sobre a rocha

Em minha carta circular "És tu o meu Deus, fora de ti não tenho bem algum" (Sl 16,2), publicada nos ACG 382, eu falava de uma vida consagrada de tipo liberal que já esgotou as suas possibilidades e não tem mais futuro. Fizeram-se esforços de renovação e tentou-se crescer, mas não exatamente segundo a lógica de uma vida que, antes de tudo, é consagrada a Deus. Muitas experiências convalidam a suspeita de que se quis construir a casa na areia, e não sobre a rocha. Qualquer tentativa de refundar a vida consagrada que não se refira a Jesus Cristo, fundamento da nossa vida (cf. 1Cor 3,11), e não nos torne mais fiéis a Dom Bosco, nosso fundador, está destinada a falir.

Não resta dúvida que a vida consagrada vive um momento ainda mais delicado daquele do imediato pós-concílio, malgrado todos os esforços de renovação que se fizeram. Diante desse panorama pode surgir a tentação de um simples retorno ao passado, a fim de recuperar segurança e tranqüilidade, a preço de um fechamento aos novos sinais dos tempos, que nos levem a responder com maior identidade, visibilidade e credibilidade.

A solução não está em opções restauradoras: não se pode, com efeito, subtrair à vida consagrada a força profética que sempre a distinguiu e que a torna dinâmica e contracultural. Como já disse muitas vezes, o que se coloca em jogo no próximo sexênio não é a sobrevivência, mas a profecia da nossa Congregação. Não devemos cultivar, portanto, uma "obstinação institucional", a procurar prolongar a vida a qualquer custo; devemos, antes, procurar com humildade, constância e alegria sermos sinais da presença de Deus e do seu amor pelo homem. Só assim podemos ser uma força que arrasta e fascina.

Pois bem, para ser uma presença profética na Igreja e no mundo, a vida consagrada deve evitar a tentação de conformar-se com a mentalidade secularizada, hedonista e consumista deste mundo e deixar-se guiar pelo Espírito, que a faz surgir como forma privilegiada de seqüela e imitação de Cristo. Podemos assim conhecer e assumir a vontade de Deus sobre nós, nesta fase da história, e levá-la para dentro da nossa vida com alegria, convicção e entusiasmo. "Não vos conformeis com a mentalidade deste século, mas transformai-vos renovando a vossa mente para poder discernir a vontade de Deus, isto é, o que é bom, a ele agradável e perfeito" (Rm 12,3). Não podemos esquecer que a vida cristã, e com maior razão a vida consagrada, não tem outra vocação e missão senão a de ser "sal da terra" e "luz do mundo".

Sal da terra nós somos, quando vivemos o espírito das bem-aventuranças, quando construímos a nossa vida a partir do sermão da montanha, quando vivemos uma existência alternativa. Trata-se de ser pessoas que, diante de uma sociedade que privilegia o sucesso, o efêmero, o provisório, o dinheiro, o prazer, o poder, a vingança, o conflito, a guerra, escolhe a paz, o perdão, a misericórdia, a gratuidade, o espírito de sacrifício, a começar do círculo restrito da família ou da comunidade para alargar-se depois à sociedade.

Jesus adverte-nos, porém, quanto à possibilidade de o sal perder o sabor, que os seus discípulos não sejam autênticos. Ele assinala os efeitos desastrosos disso: "Para nada mais serve senão para ser lançado fora e pisado pelos homens". Ou somos discípulos com clara identidade evangélica, portanto significativos e úteis para o mundo, ou somos de jogar fora e desprezar, somos infelizes, não somos nada. O cristianismo, a fé, o evangelho, a vida consagrada têm um valor social e uma responsabilidade pública, porque são vocação e missão, e não podem ser entendidos e vividos "para uso privado".

É este o sentido da exortação com que Jesus conclui as suas palavras: "Assim resplenda a vossa luz diante dos homens". Jesus quer que seus discípulos façam do sermão da montanha um programa de vida. Mansidão, pobreza, gratuidade, misericórdia, perdão, abandono em Deus, confiança, amor aos outros são, portanto, as obras evangélicas que se devem fazer resplender; elas fazem de nós "sal" e "luz", e nos ajudam a criar aquela sociedade alternativa que não permite que a humanidade se corrompa totalmente.

Nós, caros irmãos, somos chamados a ser esperança, a ser luz e sal; somos chamados a uma missão para a sociedade e o mundo, missão que se pode resumir numa palavra: santidade! Ser luz e sal quer dizer ser santos. O art. 25 das Constituições apresenta a Profissão como fonte de santificação. Depois de falar dos irmãos que, vivendo em plenitude o projeto de vida evangélica, tornam-se estímulo do nosso caminho de santificação, ele termina assim: "O testemunho desta santidade, que se realiza na missão salesiana, revela o valor único das bem-aventuranças e é o dom mais precioso que podemos oferecer aos jovens".

Dizia-nos João Paulo II: "Seria um contra-senso contentar-nos com uma vida medíocre, vivida segundo uma ética minimalista e uma religiosidade superficial… É o momento de propor a todos com convicção esta elevada medida da vida cristã ordinária", que é justamente a santidade.2 Parafraseando Dom Bosco, diria que é fascinante ser santo, porque a santidade é luminosidade, tensão espiritual, esplendor, luz, alegria interior, equilíbrio, limpidez, amor levado ao extremo.

Ao ser verdade que a vida consagrada é "dom divino, recebido pela Igreja do seu Senhor", "árvore plantada por Deus na Igreja", "dom especial que ajuda a Igreja na missão salvífica" e que ela "pertence firmemente à vida e santidade da Igreja" (LG 43 e 44), segue-se que a celebração capitular é um evento eclesial no sentido autêntico da palavra. Trata-se de um verdadeiro kairós, no qual Deus atua para levar a Igreja a ser sempre mais esposa de Cristo, toda resplendente, sem mancha e sem rugas.

4. Tema e objetivo do CG26

Num estudo lingüístico feito depois da determinação do tema do CG26, o P. Julian Fox escrevia que a palavra que mais retornava nas intervenções do Reitor-Mor, a partir da apresentação dos documentos do CG25,3 era "paixão", unida ordinariamente ao "da mihi animas". A sua conclusão é que o "da mihi animas" de Dom Bosco é aquilo que dá conteúdo e sentido à palavra "paixão", usada por mim freqüentemente em meus escritos; dito de outra forma, o termo "paixão" descreve muito bem o significado do "da mihi animas".

Esta linguagem fez-se mais intensa a partir do Congresso internacional da vida consagrada, realizado em Roma em fins de novembro de 2004, que teve justamente como tema programático "Paixão por Cristo, paixão pela Humanidade". Como membro do Conselho executivo e da Comissão teológica da USG, tive a possibilidade de contribuir para a escolha do tema, que entendia insistir sobre a centralidade da "paixão" no testemunho atual da vida consagrada.

No interior da tradição salesiana e no contexto mais amplo da vida consagrada, tal opção está ordenada a levar-nos novamente, a nós consagrados, a cultivar uma poderosa força estimulante, uma imensa energia que é justamente a do desejo. A união profunda entre "paixão" e "Da mihi animas" pertence à nossa estrutura genética não em nível formal, mas essencial. Neste modo de sentir, que é dom carismático do nosso fundador, essa "paixão" nos liga profundamente a Deus e aos jovens. A escolha do tema "Da mihi animas, cetera tolle" quis, por isso, ir à raiz do nosso carisma, à "fundação" da opção espiritual e apostólica de Dom Bosco, que ele mesmo deixou como programa de vida aos Salesianos (cf. Const 4). O lema, de fato, sintetiza a nossa identidade carismática e a nossa missão.

O Da mihi animas exprime uma missão desejada, pedida, aceita. A missão é dom de Deus; é Ele que quer estar no meio dos jovens através de nós, porque Ele mesmo os quer salvar, lhes quer dar a sua plenitude de vida; a missão deve por isso, ser desejada, porque nasce do coração de Deus salvador e não da nossa vontade. A missão é, além do mais, um dom que deve ser pedido; o missionário dos jovens não é dono nem da própria vocação nem dos seus destinatários; a missão realiza-se, em primeiro lugar, em colóquio com o Senhor da messe; isso implica uma relação profunda com Deus, verdadeiro pré-requisito de qualquer missão. A missão é, pois, um dom que se aceita; o que solicita a identificação com o carisma e o cuidado da fidelidade vocacional através da formação inicial e da formação permanente; será esta fidelidade a proteger-nos da desafeição a Deus e aos jovens.

O Cetera tolle representa a disposição interior e o esforço ascético para acolher a missão. É uma opção de desapego de tudo que nos afaste de Deus e dos jovens. Tal opção pede-nos uma vida pessoal e comunitária mais simples e mais pobre, com a conseqüente reorganização institucional do trabalho, que nos ajude a superar o risco de sermos gestores de obras, mais do que evangelizadores dos jovens; atenção às novas pobrezas dos jovens e dos nossos destinatários em geral; abertura às novas fronteiras da evangelização num empenho apostólico profundamente renovado.

O objetivo do CG 26 é tocar o coração do Salesiano a fim de fazer com que cada irmão seja "um novo Dom Bosco", seu intérprete hoje! Expressamos esse horizonte, ao dizer que o CG26 quer "despertar o coração do Salesiano com a paixão do Da mihi animas". Estamos certos de alcançar o objetivo, se cada salesiano identificar-se com Dom Bosco, acolhendo-o na própria vida como "pai e modelo" (Const 21). Devemos, por isso, renovar a nossa atenção e o nosso amor às Constituições, colhendo toda a sua força carismática.

A esse respeito, gostaria de indicar-vos de modo particular o capítulo segundo das Constituições que nos apresenta o "espírito salesiano". Recordemos o quanto Dom Bosco nos deixou escrito em seu Testamento espiritual: "Se me amastes no passado, continuai a amar-me no futuro, mediante a exata observância das nossas Constituições".4 E o P. Rua repete-nos: "Quando o Venerável Dom Bosco enviou seus filhos à América, quis que a fotografia o representasse no meio deles no ato de entregar ao P. João Cagliero, chefe da expedição, o livro das Constituições. Quantas coisas dizia Dom Bosco com aquele gesto… Quereria eu mesmo acompanhar-vos, confortar-vos, consolar-vos, proteger-vos. Mas o que não posso fazer pessoalmente, este livrinho o fará. Guardai-o como tesouro preciosíssimo".5 E, enfim, o P. Rinaldi afirmava: "Dom Bosco encontra-se nelas por inteiro".


5. Identidade carismática e paixão apostólica

O tema do CG 26 "Da mihi animas, cetera tolle" tem como subtítulo a expressão "identidade carismática e paixão apostólica". Afinal de contas, a renovação profunda de que a Congregação precisa neste momento histórico e para a qual tende este Capítulo Geral, depende da união inseparável dos dois elementos. Segundo meu modo de ver, deve-se superar desde o início o dilema clássico entre "identidade carismática e relevância social". De fato, este é um falso problema: não se trata de dois fatores independentes e a sua contraposição pode-se traduzir em tendências ideológicas que desnaturam a vida consagrada, tornam-se causa de tensões inúteis e de esforços estéreis, provocando um sentimento de falência. Pergunto-me, pois: onde encontrar a identidade salesiana, aquela que garantiu a relevância social da Congregação, que se manifesta no "fenômeno salesiano", como foi chamado por Paulo VI, fruto do seu incrível crescimento vocacional e da sua expansão mundial?

Acontece-nos aquilo que é vivido hoje pela Igreja. Ela "está sempre diante de dois imperativos sagrados, que a mantêm numa tensão insuperável. De um lado, está ligada à memória viva, à assimilação teórica e à resposta histórica à revelação de Deus em Cristo, que é origem e fundamento da sua existência. De outro, está ligada e é enviada à comunicação generosa da salvação oferecida por Deus a todos os homens, que ela alcança através da evangelização, da celebração sacramental, do testemunho vivo e da colaboração generosa de cada um de seus membros. O cuidado da identidade e o exercício da missão são igualmente sagrados. Quando a fidelidade às origens e a preocupação pela identidade são desproporcionadas ou excessivas, a Igreja converte-se numa seita e sucumbe ao fundamentalismo. Quando a preocupação pela sua relevância diante da sociedade e das causas comuns da humanidade é levada ao limite, no qual se esquecem as próprias fontes originais, então a Igreja chega à beira da dissolução e finalmente da insignificância".

Eis os dois elementos constitutivos da Igreja e, portanto, da Congregação: a sua identidade, que consiste em ser discípulos de Jesus Cristo, e a sua missão, que é centrada no trabalho pela salvação dos homens, dos jovens em nosso caso. A preocupação obsessiva pela identidade desemboca no fundamentalismo e assim se perde a relevância. A angústia pela relevância social na realização da missão a qualquer preço e à custa da perda da identidade, leva à dissolução do próprio "ser Igreja".

Isso significa que a fidelidade da Igreja, e a fortiori a da Congregação, depende da união inseparável destes dois fatores: identidade carismática e relevância social. Ao organizar freqüentemente estes elementos como antagônicos ou simplesmente separáveis, "ou identidade ou relevância", podemos cair numa concepção errada de vida consagrada, pensando que se há muita identidade de fé e de carisma, o seu empenho social possa vir a sofrer com isso, e consequentemente possa existir pouca significatividade da nossa vida. Esquecemos que "a fé sem as obras é estéril" (Tg 2,20). Não se trata de uma alternativa, mas de uma integração!

Ao falar da renovação da vida consagrada, no n. 2 do Decreto Perfectae Caritatis o Concílio Vaticano II propunha esta orientação de base: "A adequada renovação da vida religiosa compreende, ao mesmo tempo, um retorno incessante às fontes de toda vida cristã, à inspiração originária dos institutos e à sua adaptação às condições mutáveis dos tempos".

São três as referências deste programa de renovação: 1) retorno contínuo às fontes de toda vida cristã; 2) retorno contínuo à inspiração originária dos institutos; 3) adaptação dos institutos às alteradas condições dos tempos. Há, porém, primeiramente um critério que se torna normativo, ou seja, os três pedidos da reforma caminham juntos: simul. Não pode existir qualquer renovação adequada com uma só dessas perspectivas. Talvez tenha sido este o erro de certas tentativas falidas de reforma da vida consagrada. No imediato período pós-conciliar, enquanto alguns sublinhavam a inspiração originária do instituto através de uma forte identidade, outros optavam pela adequação à nova situação do mundo contemporâneo com um empenho social mais forte. Assim, ambas as polarizações ficavam infecundas e sem uma efetiva força de convicção.

Compartilhei muitas vezes a profunda impressão que me causou a visita à Casa Mãe das Irmãs da Caridade em Calcutá, justamente pela particular convicção que Madre Teresa soube transmitir às suas Irmãs: quanto mais te ocupas com aqueles para os quais ninguém dá atenção, os mais pobres e necessitados, tanto mais deves exprimir a diferença, a razão fundamental dessa preocupação, que é Cristo Crucificado. Tem-se a única forma em que se torna claro o testemunho da vida consagrada, quando ela é capaz de revelar que Deus caritas est. Madre Teresa escrevia: "A oração mais profunda leva-te à fé mais vibrante, a fé mais vibrante ao amor mais expansivo, o amor mais expansivo à entrega mais altruísta, a entrega mais altruísta à paz duradoura".

A identificação com a sociedade contemporânea, sem uma profunda identificação com Jesus Cristo, perde a sua capacidade simbólica e a sua força inspiradora. Somente essa inspiração torna possível a diferença de que a sociedade precisa. Só a identificação com um grupo social ou com um determinado programa político mesmo carregado de impacto social, não é mais eloqüente nem crível. Para essa finalidade existem outras instituições e organizações no mundo de hoje.

Eis o quanto Dom Bosco soube fazer de modo extraordinário. O nosso texto constitucional no-lo apresenta de modo magistral no artigo 21 ao falar de Dom Bosco como Pai e Mestre e ao no-lo oferecer como modelo. São três as razões apresentadas:
a) Ele conseguiu realizar na própria vida uma esplêndida harmonia de natureza e graça
– profundamente homem
– profundamente homem de Deus
– rico das virtudes do seu povo
– cheio dos dons do Espírito Santo
– era aberto às realidades terrenas
– vivia como se visse o invisível
Eis, portanto a sua identidade.
b) Estes dois aspectos fundiram-se num projeto de vida fortemente unitário: o serviço dos jovens
– com firmeza e constância
– por entre obstáculos e canseiras
– com a sensibilidade de um coração generoso
– não deu passo, não pronunciou palavra, nada empreendeu que não visasse à salvação da juventude.
Eis aí a sua relevância.
c) Realmente tinha a peito tão somente as almas.
– totalmente consagrado a Deus e plenamente devotado aos jovens
– educava evangelizando e evangelizava educando
Eis a graça da unidade.

Hoje a Congregação precisa desta conversão que nos faça recuperar, ao mesmo tempo, a identidade carismática e a paixão apostólica. O nosso empenho pela salvação dos jovens, especialmente os mais pobres, passa necessariamente através da identificação carismática.

Em Dom Bosco a santidade refulge a partir das suas obras, é verdade; mas as obras são apenas a expressão da sua vida de fé. União com Deus é viver em Deus a própria vida; é estar na Sua presença; é participação na vida divina que está em nós. Dom Bosco fez da revelação de Deus e do seu Amor, a razão da própria vida, segundo a lógica das virtudes teologais: com uma fé que se tornava sinal fascinante para os jovens, com uma esperança que era palavra luminosa para eles, com uma caridade que se fazia gesto de amor em relação a eles.

6. Conclusão

Caríssimos irmãos Capitulares, em 3 de abril de 2002 eu fui eleito Reitor-Mor pelo CG25 e nos dias sucessivos foram eleitos o Vigário e os demais Conselheiros de Setor e de Região, com a tarefa de animar e governar a Congregação para o sexênio 2002-2008. Nestes seis anos procuramos viver essa missão com intensidade, investindo as nossas melhores energias.

O P. Van Looy, pouco mais de um ano depois, foi chamado pelo Santo Padre ao ministério episcopal como Bispo da Diocese de Gent na Bélgica. Isso obrigou-nos a nomear um novo Vigário, P. Adriano Bregolin e, conseqüentemente, um novo Regional para a Itália e Oriente Médio na pessoa do P. Pier Fausto Frisoli. Um de nós, o P. Valentín De Pablo, veio a falecer enquanto realizava a Visita extraordinária à Visitadoria AFO. Dois Conselheiros, P. Antonio Domenech e P. Helvécio Baruffi, foram duramente provados pela doença. E enfim, em 23 de janeiro passado, o Santo Padre nomeou Bispo o P. Tarcisio Scaramussa, Conselheiro para a Comunicação Social, confiando-lhe a trabalhosa missão de Auxiliar na Arquidiocese de São Paulo.

Enquanto agradeço a cada um dos Conselheiros pela proximidade e colaboração leal, generosa e qualificada nos diversos papéis que lhes foram confiados, é hoje o momento de dar novamente a voz à Assembléia Capitular, que representa a expressão máxima de autoridade na vida da Congregação. A vós todos, portanto, caríssimos irmãos, a palavra, mas também o convite a abrir o coração ao Espírito, o grande Mestre interior que nos guia sempre para a verdade e a plenitude de vida.

Concluo entregando este acontecimento pentecostal da nossa Congregação a Nossa Senhora, a Maria Auxiliadora. Ela sempre este presente em nossa história e não nos fará faltar a sua presença e ajuda nesta hora. Como no Cenáculo, Maria, a especialista do Espírito, haverá de nos ensinar a deixar-nos guiar por Ele "para poder discernir a vontade de Deus, isto é, o que é bom, a ele agradável e prefeito" (Rm 12,2b).

Roma, 3 de março de 2008.

P. Pascual Chávez Villanueva
Reitor-Mor

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