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É possível ainda retornar a Dom Bosco? (4)

Na trilha dos modelos de espiritualidades analisados no artigo passado, transformação interior e Jesus político e místico, vamos ao terceiro nível que nos apresenta Dom Bosco:

3ª. O saltimbanco Bosco: A vida de Dom Bosco não foi tranqüila. Ele passou por duras provas, como veremos alguns exemplos neste retiro. A espiritualidade do nosso fundador passou por fases. Ele busca um ideal, desde os campos dos Becchi, um ideal que era de estar no meio dos meninos como amigo, mas ele se encontra, num certo momento, com um perfil de padre que não era do seu gosto. Da figura de Calosso a dos padres de Chieri, existem distancias. Os padres são profissionais da fé, professores distantes do povo. Bosco entra em crise. Ele tinha 18 anos. Ser padre sim, mas para quê? Que felicidade ele poderia ter sendo padre? Ai começa uma crise que vai durar até os 27 anos. A crise do significado do ministério. Mas Bosco encontrará alento em duas experiências espirituais: no seminário de Chieri, na capela do seminário, diante do quadro de alguns santos e da leitura da “Imitação de Cristo”; depois iniciará um processo de visita à sua interioridade nos retiros em Lanzo com a direção do padre Cafasso e nas visitas as cárceres de Turím. Neste duplo movimento espiritual forma-se em Dom Bosco uma espiritualidade de inquietude. Ele será sempre um padre em busca da vontade de Deus. Não é exagerado reconhecer que “Deus domina como um sol a mente de Dom Bosco” (Cf. Pietro Stella, Don Bosco nella storia della religiosità cattolica, vol II, p. 19). Por isso a busca da Vontade moverá suas entranhas e o fará calar, gritar, humilhar-se, ousar, criar. Isto é espiritualidade. Dela brotarão as orações mais profundas porque são colhidas na vida. Desta experiência de Deus se revela em Dom Bosco uma consciência ecológica que o faz tocar com as mãos a existência do bom Deus “tanto nas coisas pequenas, quanto nas grandes, o céu, a terra, os peixes do mar, os animais da terra, os pássaros que voam, todos falam a uma só voz: existe um Deus que os criou; um Deus que os mantém” (Cf. idem, p. 20).

Não podemos esquecer o livro “A imitação de Cristo”, de autoria de Tomás de Kempis (1397-1471), que viveu num contexto humano de violência social, insegurança política e religiosa, logo depois da guerra dos Cem Dias que abalou toda a Europa; tempo de Cisma no Ocidente que divide a Igreja de Roma e Avignon e outras questões vai orientar profundamente a vida de Dom Bosco. Imaginar ainda que numa época de grandes frustrações e confusão, este monge padre Agostiniano, nascido na Alemanha, e falecido em 1413, com 92 anos, inspirado na “Devotio Moderna”, corrente teológica belga e holandesa, busca re-definir a vida cristã através da contemplação do Mistério de Cristo e da imitação da sua vida, na obra A imitação de Cristo que teve pra mais de 3.100 edições nos mais diversos idiomas. Para Kempis a vida espiritual começa quando a pessoa se transforma e começa um processo de profunda conversão a Jesus Cristo. Ele fez um itinerário, presente no livro, que é o seguinte:

1º. livro: demonstra o drama do coração humana que luta para se libertar de todos os apegos e condicionamentos que se atravessam na busca de fazer a vontade de Deus (para Dom Bosco isto será essencial porque a teologia da época ensinava que não fazer a vontade de Deus era condenar-se ao inferno). Nesta busca o cristão entrega-se a reforma da vida interior vencendo o egoísmo, o orgulho, a soberba.
2º. Livro: neste período ele sofreu duras provações na ordem, foi exonerado do cargo de ecônomo, perdeu amigos, etc. Kempis, então, reflete sobre o verdadeiro amigo, Jesus Cristo. Por isso Dom Bosco será sempre movido por grandes amizades, sobretudo, sua intimidade com a Eucaristia.
3º. Livro: depois de um longo caminho de vida espiritual, Kempis, escreve este livro da Imitação, e se da conta de que a santidade não é fruto dos esforços pessoais somente, mas ação do mesmo Deus na pessoa. Humildade e confiança são virtudes necessárias para o reconhecimento desta presença divina.
4º. Livro: todo este livro é um tratado sobre a Eucaristia. Um dos mais belos tratados antigos sobre a realidade eucarística. É o tema da amizade com Deus vivo!

Como é possível ver através deste breve esquema o livro parte do conhecimento de si mesmo e de Deus em Jesus Cristo. Um conhecimento que passa pela experiência de vida, pelo crescimento espiritual, pela prática das virtudes, pela relação amorosa com o Senhor. Dom Bosco teve este tratado como livro de cabeceira até a morte. Leu e releu várias vezes durante suas orações. Inspirava-se nele para compor suas instruções aos jovens. Daí a constatação de que Dom Bosco foi um santo de grande contemplação. Sua vida não foi selada por uma serie de atividades, mas pela profunda convicção de que era um instrumento de Deus para a salvação dos jovens. “Não deu passo, não pronunciou palavra, nada empreendeu que não viesse à salvação da juventude… Realmente tinha a peito somente as almas” (C 21). Dom Bosco viveu uma espiritualidade encarnatória, voltada para os outros, longe do narcisismo e do sentir-se bem. Era sua compreensão de Deus. Um Deus encarnado, presente na historia, na literatura religiosa. Capaz de transformar a pessoa desde dentro.

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