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Os três SSS de Dom Bosco

Acabei de ler com muito prazer uma das mais completas obras criticas sobre Dom Bosco dos últimos anos. O autor, Padre Pietro Braido, historiador e mestre em salesianidade, reuniu em dois volumes não uma simples biografia, mas uma valiosa hermenêutica sobre a contribuição religiosa, civil e cultural de Dom Bosco no século da liberdade, século XIX 1 e suas conseqüências em nossos dias. As novas gerações de Salesianos e Filhas de Maria Auxiliadora, sem menosprezar os demais grupos da Família Salesiana, não podem deixar de ler e meditar esta obra. Sobretudo as FMA porque o que Pe. Braido pesquisou e relata com profundidade sobre as relações Institucionais entre o Instituto das FMA, Mazzarello e Dom Bosco, chega a ser novidade.


Encontrei durante minhas leituras um novo tripé que abriu horizontes para a minha compreensão da preventividade. Quem tem acesso a literatura salesiana sabe que os princípios da razão, religião e bondade, perpassam a ação educativo-evangelizadora de Dom Bosco, mas isto não limita o arco da preventividade. Em Dom Bosco encontramos um universo valórico muito rico: temperança, obediência, humildade, castidade, alegria, trabalho, ousadia, criatividade, etc. No entanto, padre Braido, ressalta três princípios educativos recomendados pelo próprio Dom Bosco ao padre Dalmazzo, diretor do Colégio de Valsalice, em Turim, para ser repassado aos jovens e salesianos: SAUDE, SABEDORIA E SANTIDADE. Na carta escrita ao padre Dalmazzo Dom Bosco dizia que os ex-alunos já viviam muito bem esses valores. Encontrei também em outros capítulos do livro recomendações insistentes de Dom Bosco aos missionários sobre o cuidado da saúde, além, é claro da santidade. Comento brevemente cada valor tentando enfatizar as conseqüências para hoje.


1. SAÚDE: Sabemos que Dom Bosco morreu aos 72 anos gasto pelos inúmeros trabalhos que realizou como padre na cidade de Turim e fora dela, sempre em busca de recursos para suas obras. O médico que o assistia dizia: Dom Bosco é como um pano velho, não adianta remendar porque rasgará mais ainda. Então, como se justifica sua preocupação pela saúde? Parece que ele não soube cuidar muito bem da própria! Na verdade Dom Bosco sempre foi muito forte, um camponês criado nos campos, passou fome e frio quando criança e jovem. Porém tinha um físico forte, inclusive seu amigo de escola, Luis Comollo, chegou a dizer-lhe que Deus não o tinha dotado de força para bater nos amigos, mas para fazer o bem. Dom Bosco recomendava aos salesianos o trabalho, mas pedia também que fossem temperantes no merecido descanso. Ele, talvez, não dava bom exemplo neste aspecto porque dizia que só descansaria no céu, não obstante isto ele sabia que a boa saúde física implicava também na saúde mental.
Hoje, na era do culto ao CORPO, o cuidado com a saúde virou vicio; muita gente se estressa malhando nas academias e seguindo as receitas de dietas para adquirir o corpo perfeito evitando o envelhecimento. Dom Bosco não nos pede isso. Ele queria uma saúde física que fosse capaz de mover o salesiano em direção aos jovens e não para dentro de si mesmo, o narcisismo; querer-se bem e cuidar-se se realiza na alteridade, no serviço aos outros. O resto é egoísmo. Não podemos descuidar de nossa saúde! Tenhamos na mente e no coração que vale mais gastar o dom que Deus nos deu no trabalho digno do que nos vícios ou numa vida acomodada sem brio e sem sentido.
Contudo não podemos deixar de lado a questão do saber envelhecer com saúde e dignidade. A melhor idade é, na atual conjuntura, uma realidade sempre mais presente em nossas comunidades. Saber envelhecer é arte! Os idosos não podem ser vistos como peso. Eles ainda têm uma missão a ser cumprida. Lembro das palavras do Reitor-Mor as FMA da casa Mazzone, em Manaus, no ano de 2004: nós precisamos das vossas orações, da vossa experiência de vida consagrada e da vossa ousadia missionária. De fato os idosos não terminaram a missão pelo fato de as forças terem diminuído, não, eles vivem na melhor idade a jovialidade da perene missão comum. A justa compreensão da saúde ajuda a nos aceitarmos em todas as fases da vida 2.



2. SABEDORIA: Sábio é aquele que inicia as novas gerações nos valores, nos ritos, nos conhecimentos da cultura, deixando a liberdade de ação. Dom Bosco foi um sábio. Ele soube ler a cultura do seu tempo e a transformou em perspectiva de vida digna para os jovens empobrecidos. O que fez Dom Bosco para os jovens além das estruturas? Ele produziu valiosos textos tanto para jovens como para os adultos. Entre 1854 a 1860 temos a grande produção literária de Dom Bosco. O estilo é simples. Padre Braido classifica em 4 categorias: 1. Vida dos papas; 2. Apologia e religiosidade popular; 3. Educação humana e civil; 4. Educação religiosa. Destaco alguns opúsculos mais conhecidos: A força da boa educação, A história da Itália, A chave do paraíso, o mês de maio, A vida de Domingos Sávio, A historia sagrada, O jovem instruído, a Vida de São Pedro, Leituras católicas. Esta forma de sabedoria popular de Dom Bosco o levou a fundar em 1859 a Sociedade dos bons livros. Dom Bosco não se preocupou apenas em proporcionar aos jovens um teto para viverem e aprenderem a ser honestos cidadãos; também os queria bons cristãos, capazes de se inserirem na sociedade como fermento na massa. Por isso o nosso caro fundador quis promover a sabedoria popular de forma sadia, sem fanatismos e reducionismos. Nosso Pai e mestre não foi um eclesiástico com as tendências da época: burguês, rico, professor de filhos de nobres, intelectual. Nada disso. Dom Bosco se inseriu na cultura popular e religiosa e foi um efetivo promotor da mesma. Com isto ele orientou e cativou corações, levou a sociedade a olhar para os jovens pobres e foi reconhecido como educador profeta.
Hoje a tentação é a intelectualidade voltada para si. Poucos se interessam em produzir para as populações mais carentes, para os jovens mais pobres. A literatura, a boa literatura é cara. Até os livros religiosos são caros para os bolsos de muitos jovens. Até os meus. Contudo temos que ousar. Não podemos cair na tentação da era de narciso. Nada de holofotes voltados para nós. A sabedoria é justa expressão da ação de Deus (Sab 1,1).
A Sagrada Escritura considera a sabedoria como um personagem. Certos textos chegam a considera-la como uma mulher, outros a personificação do povo em sua relação com Deus, outros ainda como o inicio de tudo, seria ela mesma a divindade criadora. Poético ou não a sabedoria perpassa nosso imaginário religioso adjetivada de variadas formas. Tem pessoas sabias que aprendem no cotidiano, na tradição cultural, temos também aquele que possui a sabedoria adquirida nos livros. É um conjunto de fatores interessantes como um circulo concêntrico; afinal chegará o fim. A sabedoria também ilumina a verdade. E pensar que Pilatos perguntou a Jesus: O que é a verdade? ( Jo 18,38). A pergunta não teve resposta porque Pilatos não queria aceitar a verdade que estava na sua frente. O niilismo, um dos males da modernidade, nega a possibilidade da verdade, da experiência de Deus e da promoção do bem comum. É um desafio a ser enfrentado pelos sábios. Num mundo onde se tenta obscurecer a presença de Deus das mentes, o que restaria senão o caos e a perda do sentido da vida?3.



3. SANTIDADE: O cuidado pela santidade perpassou toda a vida e a obra de Dom Bosco de forma horizontal e vertical. O ícone é São Domingos Sávio (1842-1852), porque se trata da autobiografia de Dom Bosco, espelho da sua espiritualidade, prática e ensinamento. A aventura espiritual do aluno é o conjunto das experiências do próprio Dom Bosco padre e educador, no papel de guia da “historia de uma alma”, segundo uma mentalidade internalizada durante a formação sacerdotal, teológica e experiencial 4. Contudo Domingos não foi o único. A santidade era vivida em Valdocco no cotidiano: tratar bem a todos, querer bem a todos e cumprir bem os deveres, eis a ascese; alegria, trabalho e temeprança, eis a mística. Com isto, ele mesmo, Dom Bosco, tornou-se para os jovens e salesianos, o ícone de uma santidade ativa, sem sacrifícios de aniquilamentos, nem jejuns para maltratar o corpo. Tudo em Dom Bosco se fundamenta em uma essencialidade: Daí-me almas, quer dizer, acolher a todos com os mesmos gestos de Jesus para leva-los ao PAI por Maria. Trata-se de uma santidade que se alimenta da Eucaristia cotidiana, da devoção Mariana e da fidelidade ao Papa. É uma santidade preventiva que foge da falsa modéstia e assume a vida no cotidiano, sem medo der ser e fazer os outros felizes.
Hoje a nossa tendência é a de banalizar o sagrado. Perdemos o sentido do Mistério. A sociedade tecnológica nos ensina a viver na virtualidade das relações imediatas tirando-nos do prazeroso sentido do mistério, do escondido, do escatológico. A busca da primazia de Deus em nossas vidas nos ajudará a voltar ao sentido familiar da santidade onde todos santificam todos porque vivem de um só coração e uma só alma.
Alguns teólogos da vida consagrada (Cencini, Favale, Pigna) defendem a tese de que é hora de crescermos na santidade comunitária. Os santos isolados dentro de um contexto de fraternidade não apontam para o profetismo, e sim para o aniquilamento dos demais. Lógico, que isto não anula os esforços pessoais para ser santo, contudo passa a ser uma busca fraterna através do projeto comunitário de vida. Trata-se de um desafio, pois a cultura contemporânea é mais tendenciosa ao EU; e a cultura religiosa da santidade também se formou dentro desta estrutura do pensamento. Tanto é verdade que, sempre que um santo se destaca dentro de uma comunidade, a mesma comunidade é vista como aquela que o tentou, que o humilhou, que o destratou. Os demais religiosos eram vistos como demoníacos, enquanto o beato ou beata era considerado servo de Deus. É estranho tudo isso porque Deus nos chama a sermos santos no amor, Deus é amor. Quem ama, diz João, nasceu de Deus e conhece a Deus. Quem não ama, não chegou a conhecer a Deus, pois Deus é amor (1Jo 4,7b-8). Ou ainda mais forte em relação à santidade é o que Jesus nos diz: Quem não me ama, não guarda a minha palavra. E a palavra que ouvis não é minha, mas do Pai que me enviou (Jo 14,24).



Os três SSS de Dom Bosco são de uma profunda espiritualidade salesiana porque nos orientam para o otimismo, a comunhão, a alegria e a co-responsabilidade na ação educativo-evangelizadora. Que Dom Bosco nos ajude a sermos estes sinais de saúde, sabedoria e santidade para os jovens de hoje.



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