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O complexo de Édipo

O complexo de Édipo e Paulo: uma luta hodierna. 

A argumentação que me proponho neste artigo é ousada, mas não herética. A ousadia vem da visão psicológica de um personagem que apenas podemos ler em seus argumentos, as cartas paulinas. Não é um assunto herético porque não estou preocupado em criar um ensinamento novo, embora, a reflexão seja nova para mim, visto que não sou psicólogo, mas educador sexual.

O complexo de Édipo foi uma sacada de Freud para mostrar a relação da criança na superação da dependência e identificação sexual com um de seus pais. Todos passamos pelo processo. Embora, em determinados momentos da vida ele pode retornar em outras relações de identificação. O menino sente a mãe como propriedade pessoal, se apaixona por ela. O pai torna-se o rival. A menina vive o outro lado da mesma história. Alguns contos de fadas expressam bem esta relação: João e o pé de feijão e Chapeuzinho vermelho, apenas como exemplos.

No presente artigo quero mostrar o complexo de Édipo na relação paulina com a Lei (mãe) e Jesus Cristo (pai), na qual Paulo é o filho abortivo.

Na catequese de 19/11/08, o papa Bento XVI, esclareceu que a Lei da qual fala Paulo e que se contrapõe a Jesus Cristo é a Torah, os cinco livros de Moisés. Dela o judeu, sobretudo os fariseus, orientavam seus princípios éticos e seus ritos. Em Paulo esta realidade se rompe radicalmente. O que não quer dizer que a vida cristã se pauta na libertinagem, mas sim uma liberdade que se fundamenta na única novidade: a vida nova em Cristo. A identificação de Paulo com Jesus Cristo é uma metanóia que o faz liberar-se da mãe, a Lei, e seguir os passos da nova dimensão ética da vida e de sua liturgia naquele que manifesta a justiça de Deus (Rm 1,16), Jesus Cristo. A grande questão é: como Paulo conseguiu passar por esta radical transformação?

Paulo era fariseu formado na escola de Gamaliel (Atos 22,3ss). Obediente e ferrenho defensor da Lei. Conhecia todos os seus princípios e suas conseqüências religiosas. Estava disposto a tornar-se mártir pela justa observância da mesma, na rígida disciplina judaica (Gal 1,14); quando caiu de suas pretensões diante de uma luz que o deixou cego (Atos 22,6). A partir deste fato ele rompe com todo o esquema ético e ritual da Lei: “ninguém se tornará justo diante de Deus através da observância da Lei, pois a função da Lei é dar consciência do pecado” (Rm 3,20; Gal 3,24), porém, “todos se tornaram justos gratuitamente mediante a libertação realizada por meio de Jesus Cristo” (Rm 3,24; Gal 2,16). Para mim aqui está a liberdade plena de Paulo do jugo da Lei. É o momento de sua independência familiar judaica e identificação afetivo-sexual-religiosa, pois a fé em Jesus Cristo se constitui no passaporte para a independência da Lei (Rm 3,28; Gal 3,19; Gal 5,1-7). O interessante é que Paulo ajudará também seus irmãos na fé a se tornarem livres dos ditames da Lei quando, no caloroso debate do Concílio de Jerusalém, consegue que os pagãos sejam livres da Lei (Atos 15,23-29) e apenas configurados ao essencial, ou seja, Cristo (1 Cor 3,11). Ele mesmo repete: “Foi através da Lei que eu morri para a Lei, a fim de viver para Deus” (Gal 2,19).

Neste processo de configuração de um novo homem Paulo se auto-apresenta como um abortivo, e a Lei se converte na plena expressão do amor ao próximo (Rm 13,10). Para ele Jesus Cristo mais que um personagem histórico é uma realidade que mexe suas entranhas e configura uma nova forma de ser e agir como homem e religioso, aliás, ambas se fundem na mesma pessoa. Não existe um Paulo religioso, obediente e defensor da fé e um homem que se ocupa dos afazeres cotidianos. Trata-se sempre da mesma pessoa que no silêncio do seu trabalho evangeliza e ganha o pão de cada dia sem ser peso para ninguém. Seu sustento é seu trabalho de tear tendas assim como ele cria comunidades a partir de Jesus Cristo.

Para nós que vivemos no contexto das cisões esta realidade paulina é desafiadora. Às vezes temos a impressão de que nossa existência entra numa neura existencial de querer ser discípulo do Senhor e encontrar no trabalho, na vida familiar e nas amizades, o doloroso impedimento de agir configurado ao Evangelho. Alguns até optam por ser um bom cristão no espaço sagrado e seguem com os hábitos “pagãos” fora dele. Fazendo assim o jogo triplo da cômoda dependência religiosa, social e ética. Casos tipicamente edipianos.

Na verdade o ser cristão hoje é um dilema que pode levar inclusive a patologias, tal é a dicotomia que se entrelaça entre o ser e o agir. Certamente uma boa leitura de Paulo nesta chave de leitura que acabo de narrar poderá nos ajudar a sermos livres dos cueiros da infância para assumir as calças da liberdade.

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