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“Entrega-me as pessoas e fica com os bens”: retornar a Dom Bosco

Quando o pequeno Domingos Sávio entrou no oratório de Valdocco avistou uma tabuinha na porta de entrada do escritório de Dom Bosco que dizia: DA MIHI ANIMAS, CETERA TOLLE (C 85). Uma frase do sacerdote Melquisedec, rei de Salém (Gn 14,21), que Dom Bosco assumiu para si como apóstolo dos jovens. O adolescente Domingos Sávio ficou impressionado com a frase e disse a Dom Bosco que desejava ser um bom aluno, nosso fundador teria dito que ele seria um bom tecido, e Domingos dissera, faça uma roupa para Jesus. Este meu artigo quer reavivar esta nossa missão de “alfaiates de Deus” como foi Dom Bosco. Leia-o até o final porque em algumas linhas posso ser até pessimista, mas o faço em nome da esperança que carrego no coração, mente e vontade. Eu creio na vida religiosa consagrada!


A vida de São João Bosco se centralizou na busca de Deus servindo aos jovens pobres, abandonados e em perigo (C 26). O nosso fundador viveu numa sociedade em transformação passando da cultura rural para a urbana em pleno século XIX (1815-1888). O clima econômico e político eram movidos pelos ideais da Revolução Francesa e Industrial. Mudanças que vinham trazendo novas atitudes e pressionavam a Igreja Católica. O século da liberdade não assustou o jovem padre Bosco, mas o colocou na vanguarda. Ele soube interpretar, com os instrumentos de sua época, que o momento era de transformação. Alguns sinais eram evidentes: a crise da monarquia, a unificação italiana, a perda do poder temporal do Papa, o inchamento das cidades e a evidencia da pobreza, as epidemias que matavam milhares de pessoas sem assistência médica, a fome, a exploração do trabalho humano, a juventude proveniente da zona rural sem família e sem abrigo. Isto e muito mais vinha acontecendo desde os primeiros anos de vida de João Bosco e se tornaram mais evidentes na sua vida adulta.


Hoje vivemos também num clima de mudanças rápidas, profundas e desiguais. Estamos no século da subjetividade à sombra de duas guerras mundiais que geraram sistemas totalitários a pesar dos Direitos Humanos, da revolução socialista, do crescimento do poder bélico e do atual bio-poder, da tecnologia que avança mudando nossos hábitos de comunicação, da frágil questão ecológica que ameaça a vida no planeta, da globalização da economia e da exclusão, do grande sopro de Deus que foi o Concílio Vaticano 2o. (1962-1965) com toda a guinada antropológica e eclesial que ainda está sendo gestado no seio de nossas comunidades, da queda do muro de Berlim e dos atentados de 11 de setembro que assombraram o mundo com o renascer do terrorismo como poder paralelo. Essas realidades embalam nossas vidas no mundo que parece tatear em busca de significado. As juventudes se tornam assim complexas. Como pessoas consagradas, na trilha de Dom Bosco, estamos também entre acertos e erros, vivendo uma crise no modelo de vida religiosa, a “noite escura passiva” que nos torna frágeis, apáticos, cegos para ver profeticamente como viu Dom Bosco no seu tempo.



Como interpretar, então, o ENTREGA-ME AS PESSOAS, hoje? Considero esta primeira parte do lema do nosso fundador como a OUSADIA MISSIONÁRIA, assim descrita em nossas Constituições: Caminhamos com os jovens para conduzi-los à pessoa do Senhor ressuscitado, a fim de que, descobrindo nEle e em seu Evangelho o sentido supremo da própria existência, cresçam como homens novos (C 34). Conseqüentemente a missão exige pessoas criativas respeitando o passo dos ouvintes (C 19); transgressoras sempre que se tratar de ousar na realização do bem (C 18.28); determinadas prontas a suportar tudo sem medo porque nada pode nos perturbar; firmes olhando sempre para frente para alcançar à meta (C 21.30); guiados pela fé viva como Maria que sai ao encontro de quem necessita levando a Boa-Noticia (C 20.29.35-37). Hoje é preciso pedir ao Senhor que nos ajude a entrar na “noite escura ativa” com essas atitudes de ousadia missionária, pois nossas vidas sufocadas pelas inconsistências desencantam o projeto de vida, aliás, a vida de alguns religiosos não consegue ser VIDA COMO PROJETO. A vocação como dom de atração, alegria, exclusividade e testemunho, parece mover-se num pântano onde não temos como nos agarrar para evitar o afogamento. Falta o sonho, o encanto, o arriscar até a temeridade na realização do Projeto Salvífico de Deus.



A superficialidade espiritual alertava-nos o padre Egidio Viganó, pode nos levar ao fundo do poço. Era uma voz profética que se levantava já anunciando que tempos difíceis estavam para chegar. E eles chegaram com uma força devastadora. Parece que nos faltam raízes, ou seja, o mergulho profundo no carisma de Dom Bosco, que seja capaz de nos tirar da mesmice, da comodidade, da mediocridade, para preencher o vazio que se tornou a vida de muitos de nós. Estamos doentes de fraternidade, eis o problema.



A vida religiosa é um deixar tudo para ser tudo em todos no amor. Tenho a impressão que a fraternidade saiu em campanha e ficamos sem a alegria, solidariedade, afeto, partilha, amor. Estamos órfãos com pais e mães vivos. Por isso temos tanta dificuldade de ser para os jovens sinais do amor de Deus que ousa amar incondicionalmente. Por isso sentimos, às vezes, a juventude cada vez mais distante, indiferente e desorientada; porque nós estamos um pouco à deriva.



Como interpretar, então, hoje o FICA COM OS BENS? Iniciemos com o significado da nossa Consagração: o salesiano inicia uma vida nova, que se realiza num serviço de doação permanente aos jovens (C23). Eis a segunda parte do mote. DOAÇAO TOTAL. O rei de Salém intercedeu pelas pessoas e entregou os bens que davam seguranças. Isto tem muitas conseqüências. Renunciar o poder e o carreirismo dentro da vida religiosa e do ministério presbiteral; Despojamento de tudo que nos escraviza tornando-nos medíocres e meros operários da Instituição (C 60.61); Deixar de fazer com eficiência para sermos eficazes missionários dos jovens (C 63.64.67); Vencer a tentação dos guetos e apadrinhamentos dentro da inspetoria valorizando a solidariedade econômica no trabalho digno e cotidiano ganhando o pão com o suor do rosto (C 76.78); Superar a onda subjetiva que nos acomoda numa vida consumista com frigobar pessoal, TV no quarto, dinheiro fácil; fugindo do trabalho e da temperança, valores tão caros a Dom Bosco (C 84). O resto é, assim, tudo aquilo que pode nos escravizar gerando uma cultura contrária ao modelo vocacional que um dia nos encantou.



A crise do modelo de vida religiosa se instaurou no momento em que o Concílio pediu que voltássemos às fontes de nossos carismas fundacionais. Ali começou a ser cavado o poço profundo de uma fatigosa busca de significado. Era preciso sair da moldura medieval que tornou todos os religiosos seres fora do mundo. Agora tínhamos que voltar ao mundo para ser nele sinal da presença de Deus. Foi e continua sendo uma luta gigantesca. Nela muitos sucumbiram agarrados nas fórmulas, nos hábitos e nos costumes rígidos da disciplina. Dom Bosco era próximo dos jovens e os chamava de amigos; os salesianos tinham perdido esta aproximação e criado um estilo de vida distante dos jovens e de seus sonhos. Voltar ao carisma era voltar ao primeiro momento que fez o coração de Dom Bosco arder: o encontro com a realidade do jovem abandonado, pobre e em perigo. Eles não precisavam de um patrão, mas de um amigo. Hoje os jovens não precisam de nossas grandes estruturas, mas de nossa amizade, presença simples, despojada, sincera, evangélica, propositiva e ousada.



Contudo tenhamos presente o seguinte: as juventudes de hoje vivem numa sociedade que os fabrica no cotidiano.



· São rostos de jovens marcados pela euforia e pela decepção;
· Rostos de esperança em dias melhores enquanto são corroídos pelas drogas, pela prostituição e pela violência;
· Rostos que buscam a beleza de Deus e não sabem onde encontra-lo porque faltam guias criveis;
· Rostos que buscam afeto porque seus lares foram destruídos pelo ódio e separação;
· Rostos de jovens famintos de justiça porque a sociedade mergulha na lama da corrupção;
· Rostos deformados que não olham mais em nossos olhos porque perderam a capacidade de acreditar;
· Rostos que nos interpelam e perguntam pelo significado de nossas vidas sem tempo para estar com eles como amigos;
· Rostos que são nossos e que ainda não os conhecemos…



Ainda temos tempo de sermos os “alfaiates de Deus” para acompanhar os jovens na descoberta da vida e do significado para viver com dignidade. Assim como Domingos Sávio é a expressão da santidade de um bom guia espiritual, também hoje é preciso inebriar-se deste mesmo ideal para sair de si mesmo, deixando aquilo que é lixo, como disse São Paulo, abraçando a causa do Reino. Podemos sofrer muitas tribulações, mas nunca seremos aniquilados, porque o Senhor está conosco. Nada nos perturbe!



QUESTÕES PRÁTICAS:



1. Na formação: desde o aspirantado o jovem candidato precisa ser acompanhado na internalização do carisma de Dom Bosco no contato direto com os jovens: pátio + reflexão + pátio. Retornar ao pátio é retornar a inspiração primeira do fundador;
2. Na formação permanente: em cada fase da vida favorecer e incentivar a participação em fóruns juvenis, encontros juvenis, conselhos juvenis: mundo dos jovens + reflexão + mundo dos jovens. É este o tesouro escondido;
3. Qualificação: precisamos enriquecer a nossa formação intelectual com questões que nos orientem para a educação-evangelização dos jovens: sociologia juvenil, políticas públicas juvenis, mística da juventude, etc;
4. AJS: resgatar e investir no associacionismo juvenil como método de aproximação e presença nos contextos juvenis, formação de lideranças e proposta vocacional;
5. Resgatar o espírito de família: confiança, simplicidade, partilha, oração, amizade, sala comum da comunidade, abandonar os quartos com dispensa e tecnologia pessoal;



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