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ENCONTRO PAN-AMAZÔNICO SALESIANO: O Sínodo nos Interpela!

Por Comissão Inspetorial de Comunicação-CIC

 

Discurso proferido pelo P. Jefferson Luis, Inspetor da Inspetoria São Domingos Sávio (BMA), na abertura do Encontro Pan-Amazônico Salesiano, realizado em Manaus/AM, entre os dias 1 a 4 de novembro de 2018.

Caros amigos, irmãos, irmãs, caros padres, Caro Dom Tadeu, Inspetoras salesianas, Conselheiros, sejam bem vindos a quente e acolhedora Manaus.

Para nós é motivo de grande alegria recebe-los! Os salesianos estão presentes neste território a 103 anos. No dia 05 de dezembro festejaremos 60 anos de Fundação da Inspetoria São Domingos Sávio, isto para dizer que a missão da Família Salesiana na Amazônia possui uma história cheia de acertos, limites e sonhos. E é com essa liberdade, de quem faz parte deste vasto território, que recebo cada um de vocês e ouso dirigir estas breves palavras.

Buscai o Reino de Deus e sua justiça” (Mt 6, 33).

IMG_2790 (Medium)A busca por construir o Reino de Deus foi, e continua sendo, a chama que alimenta o ardor missionário da Igreja. De fato, ela se compreende como uma instituição que existe para evangelizar (EN, 14). Esta missão, recebida do seu Senhor – Ide, batizem, façam discípulos (Mt, 28, 19), a fez chegar aos confins da terra (At 1, 8).

Entretanto, sua prática missionária ao longo da história, infelizmente, em muitos momentos ficou marcada por posturas que não espelharam o núcleo essencial do evangelho. A busca pela construção do Reino de Deus e sua Justiça, em tantos momentos se confundiram com as estruturas sócio-políticas de dominação e, em alguns casos, com graves prejuízos ao mandamento máximo de Jesus – Este mandamento eu vos deixo, amem-se! (Jo 13, 34).

Hoje, à luz dos acontecimentos da história, precisamos debruçar-nos sobre estes fatos para avaliar nossa ação como Igreja na Pan-Amazônia e para continuar sonhando o futuro. Aqui aceno três aspectos que acredito serem importantes para a reflexão que faremos ao longo destes dias.

1. REVER A HISTÓRIA

A história da Evangelização na América Latina é marcada pelo dilema cruz e espada, de tal sorte que é impossível, para um homem de fé, ler as páginas da obra A Heresia dos Índios de Ronaldo Vainfas, ou La destruición de las Indias, do Frei Bartolomé de Las Casas e não sentir uma natural necessidade de penitência.

Sim, pois as violências cometidas por cristãos do novo continente ligam-se ao hoje de nossa história de uma forma muito atuante. Se acreditamos haver uma “solidariedade na graça”, existe do mesmo modo uma corresponsabilidade no mal. E não precisamos abraçar todas as críticas de Eduardo Galeano em “As veias abertas da América Latina”, ou de Darci Ribeiro para entender isso. Nos bastará recorrer à fidelidade das letras do Evangelho, como fez o Papa Francisco durante sua viagem ao México em fevereiro de 2016.

Bem verdade que a história da colonização conheceu também exemplos de amor cristão. Entre eles recordamos Frei Bartolomé de Las Casas e São José de Anchieta, intrépidos defensores dos povos indígenas, que fizeram de suas vidas um hino de contestação ao domínio pela espada. Deixaram-nos exemplos edificantes de enculturação e dedicação à causa dos mais frágeis. Sofreram perseguições e difamações, sem desanimar.

Quando o documento sinodal nos apresenta a dimensão profética, parece-me acenar a necessidade que temos de retomar a estas figuras para nos perguntar sobre o presente – Onde tem ficado o profetismo de nossa ação? O que temos dito sobre o massacre contínuo a que estão expostos os indígenas na beira de rodovias, ou encurralados em territórios mínimos? Nos toca a contínua exploração e destruição da Amazônia? Em quais organismos de defesa dos povos indígenas e da ecologia marcamos presença?

2. REVISITAR A PRESENÇA SALESIANA NO CONTINENTE LATINO AMERICANO


IMG_2795 (Medium)A Igreja está presente no novo continente desde os seus inícios e a Congregação Salesiana também aqui veio, séculos mais tarde, para dar sua parcela de contribuição.

Chegamos na América nas últimas décadas do século XIX. Da primeira expedição missionária (1875) todos conhecemos as narrativas. O que precisamos aprofundar são os desdobramentos desta empreitada. Certamente esta busca nos fará reconhecer que nem sempre fizemos as melhores escolhas, mas nos ajudará a purificar e aperfeiçoar o serviço que prestamos ainda hoje aos povos indígenas, destinatários e participantes de nossa missão.

É preciso recordar a nossa participação nos movimentos campesinos após o Vaticano II. O ressurgimento do indigenismo e da defesa ecológica na América Latina teve uma importante participação da Igreja Católica. “Nas zonas rurais na Guatemala, na Bolívia, na Colômbia, no Equador, e no México, o clero católico desenvolveu discursos que revalorizaram as línguas e culturas autóctones”, criaram estratégias pastorais favoráveis à “organização social das populações indígenas”. Recordamos aqui de modo todo particular a figura dos bispos Leonidas Proaño e Samuel Ruiz. Como esquecer a fabulosa mensagem e testemunho de São Oscar Romero, recentemente canonizado? Nele a luta, até a oferta da vida, tornou-se mais que um discurso, tornou-se semente de esperança para todo o continente.

No Brasil, a criação do Conselho Indigenista Missionário, o CIMI, do qual participaram valorosos salesianos, a fomentação das CEB`s, foram importantes espaços de organização popular. Como não existe profecia sem consequências, aqui também tantos derramaram o sangue. Como não lembrar o salesiano P. Rodolfo Lunkenbein, e Ir. Dórothy Stang e tantos outros inumeráveis mártires da causa dos pobres.

Como revisitar essa memória para sarar as feridas e levantar o ânimo abatido? Como revisitar nossa relação com os militares e com o estado? O que estas alianças nos dizem? Que resquícios destas relações ficaram em nosso modo de lidar com os mais necessitados?

3. O REINO A CONSTRUIR

post sínodoOs indígenas migraram por todo o continente fugindo da colonização. Frei Bartolomé denunciou o paraíso destruído, a Campanha da Fraternidade aqui no Brasil refletiu em 2002 sobre “A busca da terra sem males”. O salesiano P. Alcionílio Bruzzi, relatou as crenças e lendas do Vaupes, P. Casimiro Beksta traduziu as importantes obras de Theodor Koch-Grunberg, hoje buscamos o “bem viver”.

Entre a utopia da terra sem males e a triste constatação dos imensos males nesta terra praticados o que nos resta? A resposta não é simples e nem fácil, mas certamente ela não pode prescindir da esperança cristã. Acredito que este Sínodo é para nós uma preciosa oportunidade de aprofundarmos o nosso compromisso com a Inculturação do Evangelho, com a defesa da ecologia e dos mais pobres – dos jovens, das crianças e adolescentes, sem esquecer de todos os demais. Mas isso só será possível quando houver espaço para a acolhida do outro na sua língua, na expressão dos seus códigos culturais e no seu universo simbólico. Sem isso teremos indubitavelmente ou diálogo ou destruição de um polo da alteridade.

À GUISA DE CONCLUSÃO

Caros irmãos, este nosso encontro realiza-se num momento providencial. Acabamos de celebrar o sínodo dos jovens sobre o tema do acompanhamento e discernimento vocacional. Na esteira do sínodo o Reitor Mor lançou-nos o convite à preparação ao CG28 com o tema – o perfil do salesiano de hoje para os jovens de hoje. E para completar a tríade, o sínodo para a Amazônia – novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral. Os jovens, os salesianos, os salesianos na Pan-Amazonia.

Esta é uma oportunidade privilegiada para que nos debrucemos sobre a nossa identidade e missão, sobre a situação geopolítica deste vasto território em que atuamos para uma vez mais colaborarmos com a Igreja universal.

O tema escolhido para este encontro é – O sínodo nos interpela! Se nos interpela, que exigência nos faz? Que provocações nos propõe? O que lhe diremos em resposta?

Desejo que estes dias sejam profícuos e nos ajudem a encontrar caminhos para uma evangelização na América Latina com rosto salesiano e que ajudem os nossos povos a encontrarem a vida plena do Reino proposto por Jesus.

Um bom encontro!

Obras consultadas e/ou citadas:

CONFERÊNCIA GERAL DO EPISCOPADO LATINO-AMERICANO (CELAM). Documento de Santo Domingo: conclusões: nova evangelização, promoção humana, cultura cristã. In: DOCUMENTOS DO CELAM: conclusões das Conferências do Rio de Janeiro, de Medellin, Puebla e Santo Domingo. São Paulo: Paulus, 2004.

FREYRE, Gilberto. Casa-Grande e senzala: formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal. 51ed. São Paulo: Global, 2006.

JOAO PAULO II. EXORTAÇÃO APOSTÓLICA PÓS SINODAL Ecclesia in America: sobre o encontro com Jesus Cristo vivo caminho para a conversão, a comunhão e solidariedade na América. São Paulo: Paulus, 1999.

LAS CASAS, Frei Bartolomé. O paraíso perdido: a sangrenta história da conquista da América Espanhola. Porto Alegre: L&PM, 2008.

MESTERS, Carlos. Paraíso terrestre: saudade ou esperança. 12. Ed. Petrópolis: Vozes, 1990.

PAULO VI. EXORTAÇÃO APOSTÓLICA Evangelli Nuntiandi: sobre a evangelização no mundo contemporâneo. 6. ed. São Paulo: Paulinas, 1978, 14.

REIS, Arthur Cezar Ferreira. A conquista espiritual da Amazônia. Escolas Profissionais Salesianas: São Paulo, 1942.

SUESS, Paulo; Melià, Bartimeu; Beozzo, José Oscar; Prezia, Benedito; Chamorro, Graciela; Langer, Protássio. Conversão dos cativos: povos indígenas e missão catequética. São Bernardo do Campo: Nhanduti Editora, 2009, 144p.

TREJO, Guillermo. Etnia e mobilização social: uma revisão teórica com aplicações à “quarta onda” de mobilizações indígenas na América Latina. In: AMÉRICA LATINA HOJE: conceitos e interpretações. Organização de José Maurício Domingues e Maria Maneiro; trad. Silvia de Souza Costa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.

VAINFAS, Ronaldo. A heresia dos índios: catolicismo e rebeldia no Brasil colonial. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

SILVA, Maria Freire da. Trindade, criação e ecologia. São Paulo: Paulus, 2009.

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