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"Deus plantou um jardim"

“Deus plantou um jardim” (Gn 2,8)

O autor sagrado, envolvido por sua realidade de homem do deserto, beduíno, ao escrever o livro de Gênesis (+/- 450-400 AC), quis destacar as grandes façanhas do Povo de Deus e suas crises: a utopia da igualdade, a divisão do Reino, o exílio Babilônico, a destruição de Jerusalém e da monarquia, o silêncio dos profetas, etc. Experiências que, motivadas pela fé, revelam o contato com a transcendência, do totalmente Outro, que, de várias maneiras, procurou aliança com o povo eleito (Dt 11,18; Jer 7,23). Na verdade, a figura do jardim, em Éden, como lugar da vida, no meio do deserto, traça a imagem de Deus jardineiro, na sua ação criacional sempre na busca de estabelecer uma conexão com o ser humano.

No primeiro relato da criação (Gn 1,1__2,4a), segundo a tradição sacerdotal, parte do caos. O semita não consegue imaginar o vazio, mas o caos, a des-ordem, é possível descrever. Por isso, a narrativa da criação no primeiro capítulo do Gênesis é do caos para a harmonia. No segundo relato da criação (Gn 2,4b_3.24), da tradição Yavista, aparece a imagem do deserto e nele, Yahvé, planta o jardim, chama o ser humano a ser hóspede e cuidador da criação. No primeiro relato a criação passa do caos para a harmonia, no segundo tudo começa da harmonia estabelecida, com a estreiteza entre a árvore da vida e a árvore do mal (Gn 2,9), para o caos consequente com a desobediência. Trata-se, pois, de uma experiência repleta de contradições refletidas nas grandes crises da história de Israel. A criação é concebida no interior do ser humano, fruto de sua confusão existencial.

A criação não é uma harmonia pura como podemos imaginar. O próprio Darwin em suas valiosas pesquisas nos adverte que há uma luta entre as espécies para sobreviver. Debaixo de nossos pés existe um mundo que se move, explode, treme e consome. É um complexo mundo criacional em permanente mutação que repercute no ser humano. Que é o ser humano, então? É o Éden. Nele Deus plantou um jardim (Is 58,11) e mandou cuidar. Ora, quem colocou ordem ou desordem no Éden foi o próprio ser humano. Trata-se de um estilo de vida, gemidos de parto, no qual gritamos até o nascer do broto, a vida.

Se, a criação geme até sua libertação; para o homem bíblico, este nascimento dá-se à luz da grande experiência do Êxodo, a saída do lugar estreito chamado Egito (Mq 7,14-18) e, para Paulo, da morte para a ressurreição de Jesus Cristo, após três dias na estreiteza do sepulcro, a compreensão teológica da criação é profundamente libertadora. O Egito é o lugar estreito, enquanto a terra do leite e mel é a largueza. O Éden é o interior que geme em dores de parto na esperança da libertação (Ex 15,1-19). Por outro lado, o deserto é a estreiteza, o eterno Egito, o aborto. Voltar para lá é a morte, é deixar o manar para comer as cebolas da árvore do mal.

No entanto, voltar para a estreiteza é a eterna tentação do ser humano. Há aqueles que diante do perigo formam o grupo que desejam retornar como escravos, são os covardes. Também se forma o grupo daqueles que gritam e oram sem cessar pedindo que a divindade resolva os problemas, são os alienados. Outros se agrupam com o objetivo de acelerar a morte, são os suicidas. Há, ainda o grupo dos acomodados que deixam passar o tempo sem nada fazer, são os efêmeros. Entretanto, tem sempre alguém que avança rumo ao mar e confia naquele que plantou o Éden e, certamente, daí nascerá a vida. Foi assim com Jesus Cristo (Jo 10,10; Hb 10,9-10). A sentença de que a criação geme “em dores de parto” não é uma mera figura de linguagem paulina, mas a certeza de que avançar é a única ação ousada de quem confia no Deus libertador. Para tanto, é preciso “deixar-se reconciliar com Deus” (2Cor 5,20b). Esta reconciliação depende de nós, ou seja, ou aderimos a tentação de voltar a estreiteza ou geramos a vida, rasgando o coração (Jl 2,13), para alimentar-nos da árvore da vida (Jr 17,7-8), Jesus Cristo, a videira verdadeira.

O jardim do Éden é, assim, a criação que geme em dores de parto na confiança do Deus libertador. Realidade única do conhecimento do bem, a “grande maloca” que o cuidado exige, segundo Jesus, de dentro para fora de nós, pois, a árvore do mal não está fora, mas dentro, na tentação da estreiteza. Deus, contudo, planta a criação na largueza, na profundidade e na altura do seu amor libertador por nós.

Uma das muitas leituras que podemos fazer do Gênesis nesta Campanha da Fraternidade é que o Deus zeloso, o bom pastor, o Senhor dos exércitos, o pai misericordioso é, na verdade, o vitorioso que liberta de todas as prisões, cegueiras e demônios que nos atormentam na sedução de retornar ao lugar estreito (Mt 4,1-11). Aliás, a criação está em expectativa de que não retornemos as antigas prisões e as cebolas deixadas no Egito. Cuidar da criação é, sem dúvida, tarefa importante, mas se deixarmos de avançar mar adentro, não cantaremos a libertação pascal. “Vai depender só de nós!”

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