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A visita de Bento XVI

Passaram-se alguns dias da visita do Papa Bento XVI ao Brasil, São Paulo. Muitas críticas e elogios prepararam esta visita. A fama de Bento XVI como durão e conservador, foi amplamente divulgada nos jornais e revistas em todo o Brasil. Aqui em São Paulo a coisa foi um pouco pior. Setores da sociedade tiveram todo o tempo disponível para desvirtuar o verdadeiro sentido da visita e já diziam o que o Papa iria condenar: aborto, camisinha, segundas uniões, uniões homossexuais, etc.

Finalmente o Papa chegou. No Largo de São Bento, em São Paulo, desde as primeiras horas da manha começou a chegar curiosos, jovens, devotos, evangélicos, religiosos, padres, religiosas, tinha de tudo ali. Todos queriam ver o Papa Ratzinger. A espera foi longa e sofrida. A chuva e o frio castigaram aqueles que chegaram cedo. Os canais de TV estavam todos ali equipados e prontos para os mínimos detalhes. Repórteres passavam no meio do povo entrevistando e fazendo as perguntas de praxe: “você concorda com o que o papa ensina?” Naquele momento a emoção das pessoas falava mais alto, e a resposta era sempre positiva. Perto de mim estava um rapaz que se dizia membro da igreja Reino de Deus. Perguntei a ele porque da presença, e ele me respondeu: Ah! No fundo eu sinto que o papa tem algo que eu desconheço, por isto estou aqui .

A emoção foi aumentando na medida que passava o tempo. De repente gritos, assobios, banda de música, correrias, era o papa chegando. Todos se esticavam para ver. Como bom salesiano eu também me estiquei. Subiu num pequeno muro, tietei com todo prazer. Afinal, era o sucessor de Pedro. Ainda ajudei uma senhora idosa a subir na mureta. A gritaria era grande. O papa saiu do carro e acenou sorrindo, pronto, ali ele conquistou o povo. Até o cansaço passou. Na balaustrada do mosteiro ele nos chamou de “amigos e amigas”. Foi o máximo. Ele se apresentava como um amigo que vinha de longe, mas que já se sentia nosso companheiro e amigo.

No outro dia fomos ao estádio do Pacaembu. A juventude chegava aos poucos de todos os lados. Nas suas cores, músicas e tribos elas chegavam cantando e gritando: “Bento, cadê você, eu vim aqui só pra te vê!”. Ou então um outro grito:” “Papa eu te amo!”. Era a juventude católica expressando sentimentos de gratidão à visita do amigo Bento. Dentro do estádio a alegria era geral. Cantos, danças, abraços, faixas e mensagens. Tudo para homenagear o amigo que não era mais desconhecido. Era Bento, bendito! Eu estava ali com nossos seminaristas no meio daquela garotada cantando e dançando com eles (acompanhava como podia). De repente começou a aparecer os bispos. Surpresa, pelo menos pra mim, os jovens aplaudiram os bispos e acenaram pra eles como se fossem grandes conhecidos. Foi emocionante. Era a Igreja jovem católica ali reunida na unidade e na diversidade. Que beleza!

O papa entra no estádio e os aplausos não param. A espera de longos meses de preparação, estava se tornando realidade. Ali estava o papa. Sua presença branca simbolizava a paz que tantos jovens procuram. Imediatamente eles sintonizaram com Bento e gritavam pra ele como se quisessem que ele apertasse a mão de cada um. O papa é acolhido e depois começa a escutar os testemunhos de jovens. Naqueles relatos estavam refletidos os rostos de numerosos jovens ali presentes. Depois começam as apresentações. O Pacaembu se torna um oratório festivo: mensagens, alegria, expressões culturais na música e na dança, escuta da Palavra de Deus, amizade. O papa acompanha tudo e diz aos jovens que é preciso ser “livre e responsável”. Não condena nada! Apenas afirma a beleza do ser cristão numa sociedade que tenta apagar os traços de Deus da sua história. O papa convida também os jovens a serem castos. Castidade que não é negação dos sentimentos mais profundos, mas verdadeira vida. Amor que irradia beleza e que liberta do narcisismo. O encontro, enfim, foi alegre e cheio de entusiasmo.

Os demais encontros com o Papa seguiram as mesmas sensações e expectativas. O fato é que onde estava o papa ali estava a multidão. E ele foi carinhoso e atencioso com o povo. Contudo, não posso deixar de reconhecer que senti uma certa indiferença da parte do clero em geral e dos religiosos e religiosas. Os lugares reservados para os padres tanto na missa no Campo de Marte como em Aparecida ficaram vazios. Dava pena ver o povo horas e horas de pé tendo tantas cadeiras vazias. Isto foi um sinal evidente de uma rejeição. Por outro lado o povo simples e devoto foi ver e escutar o papa. Quando saí para distribuir a Eucaristia fiquei surpreso com a quantidade de jovens presentes na missa no Campo de Marte. Eles estavam novamente lá para ver Bento XVI. Muitos chegaram de longe, de outros países, passaram a noite em vigília, estavam cansados, mas contentes. Os jovens continuam, como aquele do Evangelho de Mateus, correndo atrás da Palavra de Deus, eles querem vida. Bento XVI sabe disto, por isso, quis encontrar os jovens. Enquanto isto outros adultos que perderam a capacidade de evoluir nas suas teses ficaram atrás das câmeras e nas páginas dos jornais denegrindo a imagem de Bento XVI.



Bento XVI, com exceção da oração do terço em Aparecida, não teve um encontro específico com religiosos e religiosas, nem mesmo com os padres. Na Basílica foram acolhidos todos os romeiros para rezarem com o papa. Contudo, em várias falas ele fez referência carinhosa, sobretudo, à vida religiosa consagrada: “Os consagrados que se entregam totalmente a Deus, sob a moção do Espírito Santo, participam na missão de Igreja, testemunhando a esperança no Reino celeste entre todos os homens. Por isso, abençôo e invoco a proteção divina a todos os religiosos que dentro da seara do Senhor se dedicam a Cristo e aos irmãos. As pessoas consagradas merecem, verdadeiramente, a gratidão da comunidade eclesial: monges e monjas, contemplativos e contemplativas, religiosos e religiosas dedicados às obras de apostolado, membros de institutos seculares e das sociedades de vida apostólica, eremitas e virgens consagradas. “A sua existência dá testemunho do amor a Cristo quando eles se encaminham pelo seu seguimento, tal como este se propõe no Evangelho e, com íntima alegria, assumem o mesmo estilo de vida que Ele escolheu para Si” (Trecho do discurso aos jovens no Pacaembu). Dirigiu-se também aos Diáconos e seminaristas: “Queridos Diáconos e Seminaristas, a vós também que ocupais um lugar especial no coração do Papa, uma saudação muito fraterna e cordial. A jovialidade, o entusiasmo, o idealismo, o ânimo em enfrentar com audácia os novos desafios, renovam a disponibilidade do Povo de Deus, tornam os fiéis mais dinâmicos e fazem a Comunidade Cristã crescer, progredir, ser mais confiante, feliz e otimista” (Discurso depois da Oração do Terço em Aparecida). Aos padres ele disse na mesma ocasião: “Saúdo aos estimados padres, aqui presentes, penso e oro por todos os sacerdotes espalhados pelo mundo inteiro, de modo particular pelos da América Latina e do Caribe, neles incluindo os que são fidei donum. Quantos desafios, quantas situações difíceis enfrentais, quanta generosidade, quanta doação, sacrifícios e renúncias! O testemunho de um sacerdócio bem vivido dignifica a Igreja, suscita admiração nos fiéis, é fonte de bênçãos para a Comunidade, é a melhor promoção vocacional, é o mais autêntico convite para que outros jovens também respondam positivamente aos apelos do Senhor”.



Aos bispos do Brasil reunidos na catedral da Sé o papa deixou uma palavra de ordem pertinente: “O povo pobre das periferias urbanas ou do campo precisa sentir a proximidade da Igreja, seja no socorro das suas necessidades mais urgentes, como também na defesa dos seus direitos e na promoção comum de uma sociedade fundamentada na justiça e na paz. Os pobres são os destinatários privilegiados do Evangelho e um Bispo, modelado segundo a imagem do Bom Pastor, deve estar particularmente atento em oferecer o divino bálsamo da fé, sem descuidar do “pão material”. Como pude evidenciar na Encíclica Deus caritas est, “a Igreja não pode descurar o serviço da caridade, tal como não pode negligenciar os Sacramentos nem a Palavra” (n. 22).



Para mim a passagem de Bento XVI foi um momento de graça e de reflexão. A Igreja avança em meio a grandes tempestades. É uma época difícil e está emergindo uma redefinição do ser-humano. Concluo com algumas questões que julgo oportunas desde a minha experiência:

1. O papa não veio ao Brasil para condenar questões morais e sociais. Só os jornalistas e repórteres com pouca instrução conseguiram encontrar nos discursos termos de condenação. Aliás, foi dito que ele concordaria com a ex-comunhão dos políticos mexicanos que votaram pela Lei do aborto. O papa sequer mencionou o termo.



2. A imagem de um homem prepotente e surdo aos clamores dos mais pobres caiu por terra. Bento XVI escutou, abraçou, se emocionou, até gargalhou com o povo. Ele era o amigo alegre, mas não deixou de ser o mensageiro da Boa Notícia de Jesus que incomoda e mexe com as hipocrisias.



3. A presença de Bento foi polêmica. O atual pluralismo torna difícil as expressões públicas, e as diversidades de interlocutores são tremendamente ambivalentes.



4. O papa não teve rodeios para dizer que no Brasil a questão social é injusta e corrompida. Muitos queriam que Bento falasse como um defensor da libertação. É uma pena que alguns pensam assim porque a Teologia da Libertação não nasceu como uma doutrina, mas como uma prática libertadora desde os pobres. Assim ela permanecerá. O lugar da TdL não é dentro de um manual de teologia, mas na vida do povo que se organiza. Bento afirmou e legitimou a necessidade de cristãos conscientes de sua missão social e transformadora da sociedade.



5. A questão de base hoje é cultural. O papa fez afirmações que chocaram a este respeito, por exemplo, quando afirmou: “Porém, o que significou a aceitação da fé cristã para os povos da América Latina e do Caribe? Para eles, significou conhecer e acolher Cristo, o Deus desconhecido que os seus antepassados, sem o saber, buscavam nas suas ricas tradições religiosas. Cristo era o Salvador que esperavam silenciosamente. Significou também ter recebido, com as águas do batismo, a vida divina que fez deles filhos de Deus por adoção; ter recebido, outrossim, o Espírito Santo que veio fecundar as suas culturas, purificando-as e desenvolvendo os numerosos germes e sementes que o Verbo encarnado tinha lançado nelas, orientando-as assim pelos caminhos do Evangelho. Com efeito, o anúncio de Jesus e do seu Evangelho não supôs, em qualquer momento, uma alienação das culturas pré-colombianas, nem foi uma imposição de uma cultura alheia. As culturas autênticas não estão encerradas em si mesmas, nem petrificadas num determinado ponto da história, mas estão abertas, mais ainda, buscam o encontro com outras culturas, esperam alcançar a universalidade no encontro e o diálogo com outras formas de vida e com os elementos que possam levar a uma nova síntese, em que se respeite sempre a diversidade das expressões e da sua realização cultural concreta”. No Documento de Santo Domingo temos um juízo crítico, apoiado em dois discursos de João Paulo 2o, sobre este processo de evangelização, reconhecendo as mazelas (Cf. n. 20). Por isso nesta quarta 23/05, no Vaticano, o papa fez uma afirmação corrigindo seu discurso na sessão de abertura da 5ª Conferencia em Aparecida:



“Não podemos de fato esquecer os sofrimentos e as injustiças cometidas pelos colonizadores às populações indígenas, muitas vezes violentados nos seus direitos humanos fundamentais. Contudo a referência a tais crimes injustificáveis – crimes, no entanto, que foram condenados pelos missionários como Bartolomeu de Las Casas e por teólogos como Francisco da Vitória da Universidade de Salamanca – não deve impedir o reconhecimento de gratidão da obra maravilhosa realizada pela graça divina entre aquelas populações no decorrer daqueles séculos. O Evangelho se tornou assim no Continente elemento portador de uma síntese dinâmica que, com variadas facetas, segundo as diferentes nações, exprime a identidade dos povos latino americanos. Hoje, na época da globalização, esta identidade católica apresenta-se ainda como a resposta mais adequada, porque é animada de uma seria formação espiritual e dos princípios da doutrina social da Igreja” (Audiência Geral 23/05/07). Este reconhecimento era necessário. De fato os abusos, o tráfico de escravos e outros; revelam o “holocausto desconhecido”.



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