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A revolta das marionetes: a geração programada vira o jogo

“Desde pequenos fomos programados, a receber o que vocês nos empurraram com os enlatados, dos U.S.A, de nove as seis”.

(Renato Russo, Geração Coca-Cola)

Assim começa a música cantada de forma estridente pelo ícone da geração jovem brasileira dos anos 80. Renato Russo, na verdade, apenas nos apresenta de maneira mais simples aquilo que a academia demonstra de maneira mais erudita e menos “sonora”, em primeiro lugar que o sistema capitalista planejou moldar a sociedade e as gerações juvenis segundo seus próprios valores e, em segundo lugar que as desigualdades sociais nascem do desejo mimético, o desejo de copiar, que os países ditos desenvolvidos, empurraram para o terceiro mundo .

Hoje se fala muito de Geração Y e Geração Z. Conceitos “sociológicos” que tentam demonstrar como o mercado de consumo e as novas tecnologias influenciam a maneira de os jovens verem e conviverem com o mundo à sua volta (na verdade estas teorias geracionais mais se parecem com uma forma sutil de traçar o perfil de potenciais consumidores). Parece mesmo que ouvimos Charles Darwin redivivo nos apresentando novas teorias evolutivas , agora de gerações juvenis, que desde o grande evento da Segunda Guerra, dão uma resposta à frieza e excesso de racionalidade do mundo adulto.
Somos forçados a entrever uma espécie de teoria da conspiração nascida da tensão entre o sistema capitalista, o mundo adulto e o mundo juvenil logo após a guerra. Os jovens, chamados na teoria geracional “evolutiva” de Baby Boomers, saem dos esquemas racionais que estragaram o mundo e resolvem viver suas vidas, num ressurgimento dos sentidos e sentimentos, adormecidos por Descartes no início da modernidade. A promessa de que a razão e a ciência salvariam o mundo teria falhado, agora é a vez de curtir o mundo, o amor, as drogas, a música, a vez de ser “livres” e quebrar os esquemas falidos (e de muitos modos fálicos) .

Mas, os adultos também tinham suas respostas (válidas) ao horror da guerra. Para eles a palavra-chave era a reconstrução. Reconstruir os países arrasados e os modos de vida, reconstruir a tradição, a pátria e a família perfeita. Aproveitando-se deste esforço de reconstrução, os Estados Unidos encontram a melhor oportunidade para difundir seu American Way of life, o sonho americano de uma vida generosa e opulenta, que traz o shopping center como templo e a mídia como fonte mística. Assim se desenvolve a etapa mais forte da sociedade de consumo capitalista, nascida de um sonho de reconstrução e da grande receita do marketing: utilizar-se do sentimento, das grandes causas e valores das pessoas para vender seu produto, a solução de seus problemas. O esquema funciona bem, alastrando-se desde os Estados Unidos, para a Europa arrasada, até chegar ao terceiro mundo e aos países emergentes (como o Brasil), que confiam no mito de que, para alcançar o status de país desenvolvido, é preciso começar imitando o estilo de vida dos que já o são, abandonando inclusive sua própria identidade cultural.

Enquanto isso, os anos passam e os jovens continuam minando a idéia de retornar ao antes da guerra. “Se este sistema trouxe o caos, porque retornar a ele?”, com certeza foi uma das muitas perguntas filosofadas nas rodas de Woodstock. O Mercado não se cansa e ousa aproveitar deste anseio pelo novo, assim como já seduziu os pais desses jovens, conquistados no seu desejo de reconstrução. O Mercado (visto na sua dimensão insana, como aquela entidade que devora tudo a sua volta, uma nova face de Mamom dos tempos bíblicos) tinha certeza de que aquela geração seria difícil de alcançar, mas podiam muito bem produzir uma geração só para si, seguindo seus moldes e seus valores.

Moldar uma geração não é uma coisa fácil, para amarrar as marionetes nos seus cadarços é preciso estar disposto a sofrer alguns arranhões. Durante muito tempo, os jovens foram resistentes demais em se tornarem marionetes, guiados por artistas e religiosos que gritavam, cantavam e agitavam os braços lançando as teias tentadoras do sistema para longe. Até que, em meados dos anos 80, parece que os molecotes entregaram os pontos, não haviam mais lutas, músicas provocativas, religiosos falando de política. Seduzidos pela tecnologia, pelo computador, e pelo American Way of Life, os jovens pareciam domesticados. De cadarços bem amarrados (apenas nas cabeças, porque os tênis continuavam de cadarços soltos), as marionetes escutam as músicas que o Mercado oferece, usam as roupas que lhe são oferecidas. No Brasil, retiram um presidente que após muitas mancadas e esquemas de corrupção, acaba atingindo também os interesses da lógica do consumo capitalista (podemos realmente ver um resquício de luta nos “caras-pintada” brasileiros, ou apenas uma massa insuflada pela mídia?). É o triunfo da sociedade de consumo! Agora é possível classificar todas as idades dos consumidores. Baby Boomers, Geração X, Geração Y (a conquista!) e Geração Z (a cerejinha do bolo).
Uma geração superficial e vazia, sem sonhos, sem lutas, sem interesse político, com dinheiro para comprar o que quiser. Uma geração-modelo de vitalidade e felicidade. Era essa a expectativa do grande controlador dos cadarços das marionetes?

Mas os seres humanos nasceram para a liberdade, e é na juventude que se sente isso mais intensamente. A liberdade, posta em cheque, diante das facilidades do mercado, gera crise em alguns, vazio, falta de gosto pela vida idealizada. Em outros, marginalizados das benesses do sistema encontram na violência uma maneira de alcançar os desejos frustrados que o Mercado lhe incita, mas que, por suas próprias condições não poderá alcançar. O anestésico para o vazio, em grande parte, continua o mesmo, desde a guerra (e antes dela), as drogas entram em ação, mas do que em todos os tempos. A Super-Geração, projetada pelo Mercado, está ruindo. O sistema capitalista, pautado no lucro e no acúmulo entrou em colapso e a natureza não tem mais recursos para oferecer. Agora que estava com a faca e o queijo na mão, o Mercado persegue que seu queijo está acabando e não é possível fazer mais.

Diante do desafio, a juventude se reacende, e, pouco a pouco, ainda estamos a passos lentos, começamos a reencontrar aqueles sinais do novo, que brotam de seus corações e movimentam o mundo. A dimensão do Sagrado volta de maneira estrondosa, as causas sociais, a luta pela justiça, pela paz e pela preservação ambiental ressurge no coração até agora acorrentado pelos cadarços de marionetes. Alguns fios são soltos, algumas mudanças começam a acontecer, a partir de dentro. As iscas da tecnologia, usadas para fisgar e atar as marionetes, começam a ser usadas para reacender valores.

Os jovens continuam comprando (e como compram!). E continuam sendo idealizados, servindo de modelo de beleza, vitalidade e sensualidade para crianças e adultos. Alguns jovens soltaram-se de vez das cadeias “marionéticas”, ao passo que outros percebem que, se puxarmos mais forte, nós é que movimentamos as mãos do sistema. O capitalismo com certeza não vai morrer, ao menos, não agora, mesmo enfrentado a sua maior crise, mas agora, pela primeira vez, nossos laços vão influenciar em suas decisões. As marionetes movimentam os dedos até então controladores, os “consumidores conscientes” também querem apitar o jogo. O Mercado se espanta, não esperava que suas próprias cordas fossem usadas para religar as pessoas entre si e com o Sagrado. A exaltação da subjetividade começa a ser porta para a vivência comunitária, a mídia a ser espaço de a Geração Superficial demonstrar sua profundidade.

Claro que esta é apenas uma lenda apocalíptica, a vida não é tão maniqueísta e romântica. Os jovens têm qualidades e defeitos, o Mercado tem pontos positivos e negativos. O eu quero mesmo dizer com tudo isso é que, primeiramente, a juventude nunca será uma geração superficial e vazia, ainda que muitos indivíduos o sejam, por que é de sua própria natureza buscar mais, mais profundidade, mais vida para si e para os outros, mais compromisso, e , por que não, mais festa, mas curtição, mais prazer. A segunda coisa é que este sistema realmente entrou em colapso, porque acredita que o progresso é possível a qualquer custo. Agora chegou o tempo de, com os sonhos do mundo jovem e do mundo adulto, reconstruir os laços de humanidade. Sem histórias da Carochinha.

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