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A PALAVRA DE DEUS PERMANENCERÁ PARA SEMPRE

Jamais me interessei em calcular a superfície territorial da região que compreende a Austrália e a faixa do Oceano Pacífico que constituem a nossa Inspetoria de Maria Auxiliadora; contudo tenho uma forte suspeita que se trate da Inspetoria territorialmente mais extensa de toda a Congregação. A partir de Perth na costa ocidental do continente australiano chega-se a Saleloga, pequena cidade portuária na ilha de Savaii, o ponto extremo do grupo de Samoa. O vôo de Perth a Sydney emprega quase cinco horas, e o de S;tre da nossaydney a Samoa outras seis horas. A Inspetoria atravessa diversos fusos horários, compreendida a linha da marca internacional. Posso partir de Sydney para Samoa às cinco da tarde de Domingo e chegar a Samoa às duas da manhã do mesmo Domingo.

Como me foi pedido para dar um boa-noite refletindo sobre minhas experiências pessoais, este não me parece nem o lugar nem a ocasião certa para apresentar uma história ou uma descrição sumária da Inspetoria. Entretanto, permitam-me dar um breve esboço em poucas palavras. Os Salesianos chegaram pela primeira vez à Austrália em 1823, como missionários dos aborígenes na zona ocidental do continente (estado de Western Austrália); são, portanto, oitenta e cinco anos que Dom Bosco está presente na Austrália. Espero ainda viver para a celebração do centenário. Terei 83 anos. Espalhados entre a Austrália, Samoa e as Ilhas Fiji somos 110 irmãos, com idade média de cinqüenta e nove anos. Contudo, esse dado é um tanto falso pelo fato de termos um número considerável de jovens samoanos que chegam em grande número, embora deixem também em grande número. A idade média dos irmãos da Inspetoria original que fundaram a nossa missão no Pacífico é pouco superior aos sessenta e quatro anos.

Refiro-me agora à experiência que me foi pedida para compartilhar. Passei muitos anos em várias universidades e centros acadêmicos como docente e professor de estudos do Novo Testamento, e também como administrador acadêmico, especialmente como decano da Universidade Católica Australiana e da Universidade Católica da América em Washington DC. Deixei essa fase da minha vida em dois mil e cinco para assumir a atual responsabilidade de Inspetor. Apesar de não ser jovem de idade, estou feliz por dedicar estes anos de serviço à minha Inspetoria que me deu por tantos anos a oportunidade e o apoio para meus estudos, minhas pesquisas e a vida acadêmica.
Creio sinceramente que a minha vocação salesiana ensinou-me a dedicar-me intensa e incessantemente à missão que me foi confiada: pão e trabalho jamais me faltaram; em relação ao paraíso veremos, e esperamos. Algum sucesso como professor, pesquisador e autor de vasta coleção de publicações encontram suas raízes numa espiritualidade aprendida de Dom Bosco e de meus irmãos Salesianos, a ponto de levar-me a ser reconhecido como um especialista católico de grande importância no campo bíblico e teológico da Igreja contemporânea. Ao mesmo tempo surgem tensões notáveis quando alguém tenta integrar uma longa experiência e reflexão acadêmica e crítica com a liderança de uma Congregação que, até pouco tempo, varria tudo que estivesse diante de si durante a sua breve, mas gloriosa história. Procuro explicar-me brevemente.

Um dos documentos mais subversivos que surgiram do Concílio Vaticano II é certamente a Constituição Dogmática sobre a Divina Revelação (Dei Verbum). A Igreja pré-conciliar (como a nossa Congregação pré-conciliar) era uma Igreja profundamente Eucarística. Um Concílio Ecumênico, o Magistério supremo da Igreja Católica Romana, porém, disse-nos que, de agora em diante, havia outro fator em jogo:

«Assim como a Igreja cresce pela freqüência ao mistério eucarístico, recebe igualmente um novo impulso espiritual da crescente veneração à palavra de Deus que "permanece para sempre"» (Is 40,8; cf. 1Pt 1,23-25) (Dei Verbum 26).

A Eucaristia, energia vital da Tradição Católica e da tradição salesiana, é assim associada inseparavelmente à presença vital da Palavra de Deus na Igreja. Estes mesmos sentimentos já estavam articulados de modo muito sucinto na Dei Verbum 21:

«A Igreja sempre honrou as Escrituras como o fez com o corpo do Senhor, especialmente na santa liturgia, em cuja mesa não deve faltar nem a palavra de Deus nem o corpo do Senhor, para serem dados aos fiéis».

Apesar do impulso dado à Palavra de Deus pelo Concílio – como também pela nossa reflexão pós-conciliar (ver Constituições 85, 87-88 e a insistência sobre a Lectio Divina) – a aceitação incondicionada e aberta ao desafio que nos brota da leitura crítica da Escritura, nem sempre encontrou ressonância na Igreja Católica e nas Congregações Religiosas. Permitam-me algum exemplo.

Quando se procura descobrir a intenção original dos vários autores de Gênesis 1-11, o resultado é muitas vezes um sentido de choque e de alarme geral. Essas narrações comportam muito mais que Adão e Eva, uma serpente e uma maçã. O problema da historicidade dos acontecimentos trazidos por Mateus 1-2 e Lucas 1-2 nas narrações da infância é ainda mais sério. Seria, talvez, Maria a figura heróica da narração? As coisas se desenvolveram justamente segundo a seqüência lucana: anunciação, visita a Isabel, nascimento do Senhor, apresentação e reencontro de Jesus no templo, como são demarcadas pelos Mistérios Gozosos do Rosário? Ou seria José o herói da narração, e os acontecimentos aconteceram segundo o esquema de Mateus: uma genealogia, a suspeita de um nascimento ilegítimo, a dissimulação de Herodes no contexto da visita dos Magos vindos do Oriente, a matança dos inocentes, o retorno do Egito e a necessidade de outra fuga para Nazaré? Essa seqüência de acontecimentos não se adapta de modo algum na compilação de uma série de Mistérios Gozosos! Não me perguntem, depois, a respeito de uma possível fonte bíblica que se possa referir com autenticidade aos Mistérios Luminosos!

Hoje estamos a partir com dificuldade sob o influxo de um "afrouxamento" do entusiasmo pela Palavra que caracterizou o imediato pós-Concílio. Esse afrouxamento em geral é iniciado e encorajado por aqueles que são prepostos à guia da Igreja. Fala-se nestes tempos tanto dos abusos que devem ser corrigidos – a respeito da interpretação da Palavra de Deus e da celebração eucarística. Sinto calafrios só em pensar o que brotará do Sínodo sobre a Palavra de Deus programado para este ano. O Sínodo, sem dúvida, inverterá, embora sutilmente, a insistência da Dei Verbum 10 de que o Magistério não é superior à palavra de Deus. Suspeito que se dirá que a Palavra pode ser autenticamente interpretada apenas pelo Magistério.

Mas, qual Magistério? Ouvimos alguma coisa da nossa tradição cristã que já conta com 2000 anos? Quando foi a última vez que vocês leram ou ouviram um amplo uso dos documentos conciliares ou dos grandes Papas do Concílio: João XXIII e Paulo VI? De fato, há muita gente nos ambientes vaticanos mais elevados que gostariam de suprimir o ensinamento conciliar, especialmente o da Gaudium et Spes. O Magistério foi reduzido ao ensinamento de João Paulo II e Bento XVI. Trata-se de um empobrecimento incrível.

Considero-me afortunado por ter-me feito Salesiano nos anos sessenta, e de ter caminhado ao longo da experiência excitante e vital do Concílio e da era imediatamente pós-conciliar, até o momento presente de "afrouxamento" da alegria e esperança (Gaudium et Spes) geradas pelo Concílio na vida da Igreja. Do meu ponto de vista, este processo de "afrouxamento" na focalização crítica da fonte de tudo o que somos e de tudo o que fazemos chegou quase a um ponto fixo. Na Igreja, como nos Institutos Religiosos são muitos os que vêem no estudo e na pesquisa bíblica um verdadeiro perigo para a fé simples da gente comum e do religioso ordinário. Leituras da Escritura, fundamentalistas em vez de críticas, são mais aceitáveis e, por isso, estão em todos os lugares, também neste Capítulo.

Os jovens confiados aos nossos cuidados estão expostos, nos mínimos detalhes, a todas as exigências de sua particular profissão ou trabalho, e são educados à busca crítica quer na escola como nos ambientes universitários. Contudo, jamais são estimulados ao confronto crítico com a fonte da sua fé: precisamente a Palavra de Deus. Estamos a entrar num período da vida da Igreja em que a Palavra de Deus encontra seu uso legítimo apenas no ensinamento da Igreja. Muitos professores não têm preparação adequada e, conseqüentemente, opõem resistência à riqueza revelada e à mão dos cento e cinqüenta anos de pesquisas críticas no campo bíblico e teológico, invocados e sancionados pelo Papa Pio XII e pelo Concílio Vaticano II. A autoridade é usada contra a análise crítica.

Em 1973, Raymond Brown, estudioso católico de peso máximo em campo bíblico, fez a caricatura de um fenômeno que, segundo ele, era um evento do passado:

Se o estudioso bíblico insistia sobre sua liberdade de brincar com seus novos brinquedos de linguagem e formas literárias, esse estudioso devia manter-se em seu andador e sem perturbar de modo algum a casa toda posta em perfeita ordem – (tradução livre minha – The Virginal Conception and the Bodily Resurrection of Jesus [London: Geoffrey Chapman, 1973], 6).

Infelizmente, a minha experiência pessoal diz que esse desejo de controlar ou diminuir o papel do pensamento e da reflexão crítica na Igreja não é um fato do passado. O documento publicado pela Comissão Bíblica em 1993, sob o título "A interpretação da Bíblia na Igreja" é um documento aclamado, mas também igualmente ignorado.

Eis a questão: as tensões criadas num Inspetor salesiano, educado por 40 anos a pensar criticamente, agora procura guiar uma Inspetoria numa situação em que a Igreja – e muito da Congregação – recusa tal aproximação da vida cristã e religiosa. Vê-se sujeito, experiência após outra, ao uso superficial da Palavra de Deus.

Nessa situação, será possível, para nós salesianos, ter alguma coisa da alegria e da coragem de Dom Bosco? Alguma coisa da Gaudium et Spes iniciada pelo Concílio? Nada te perturbe! Este não è um tempo de saudades ou desencorajamento, mas ocasião de desenvolver o sentido da nossa história e da compreensão maior do significado de um Concílio Ecumênico que nos pediu para fazer o possível a fim de redescobrir a verdade e como essa verdade influi pessoalmente sobre todos. Alegro-me ao acolher o apelo do Reitor-Mor "para novas fronteiras". Mas a resposta não deve se esgotar num simples "o que fazemos?" Devemos reexaminar a raison dêtre da nossa existência, perguntando-nos "Por que existimos e quem somos". Bom ponto de partida para este reexame é a pessoa e a mensagem de Jesus, como nos são comunicadas através das Escrituras inspiradas, criticamente lidas.

A Igreja e a vida religiosa estão, sem qualquer dúvida, atravessando um momento difícil, doloroso e cheio de confusão, especialmente para aqueles entre nós que vivemos a autêntica tradição católica passada, durante e após o Concílio e que dedicamos a nossa vida àquela visão e àquela práxis. Muitos gostariam de nos instalarem no andador, mas isso – ao menos como eu penso – não é possível.

Estes tempos não são fáceis para a Igreja Católica – nem para seus líderes, nem para os fiéis. Oitenta e três por cento dos católicos na Austrália abandonaram a prática da fé. Entretanto é um tempo de crescimento doloroso que não pode ser negado. As dificuldades destes tempos, porém, não podem ser ignoradas ou escondidas atrás da "restauração" de um passado idealizado, que se torna possível, às vezes, por um fanatismo repressivo contra qualquer tentativa de dar voz a qualquer crítica que seja contrária ao status quo.

A esperança libertadora explodida com o Concílio Vaticano II levou a uma verdadeira fome por "aquilo que ainda não vemos", e esta esperança não será reprimida. "Pois é na esperança que fomos salvos. Ora, aquilo que se tem diante dos olhos não é objeto de esperança: como pode alguém esperar o que está vendo? Mas, se esperamos o que não vemos, é porque o aguardamos com perseverança" (Rm 8,24-25).

Talvez eu ainda esteja sob o influxo da intoxicação geral que envolveu a todos naqueles dias inebriantes do imediato pós-Concílio. O futuro da Igreja e dos Institutos religiosos que sobreviverão ao embate presente entre dogmatismo crescente e desintegração cultural veloz, darão a sua resposta e re-escreverão a própria história. Pessoalmente, a minha experiência de Salesiano ensina-me que a nossa guia última deve continuar a ser a palavra expressa pelos níveis máximos do Magistério da Igreja, o Concílio Vaticano II.

Verbum Domini manet in aeternum (Isaías 40,8)

Francis J. Moloney, SDB
Inspetor da Austrália
trad.: jav

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