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VISÃO INDÍGENA SALESIANA SOBRE O SÍNODO PAN-AMAZÔNICO

by / 0 Comments / 55 View / 1 de novembro de 2018

Por Comissão Inspetorial de Comunicação-CIC

Palestra proferida pelo indígena Tuyuka, P. Justino Sarmento Rezende, durante o Encontro Pan-Amazônico salesiano, realizado em Manaus/AM, entre os dias 1 a 4 de novembro de 2018.

INICIANDO A CONVERSA

Meus caríssimos irmãos salesianos e queridas irmãs salesianas, para nós, para os povos indígenas, para Congregação salesiana e para a Igreja o Sínodo Pan-Amazônico é muito importante. Serve-nos como um espelho novo que mostra como está o nosso rosto salesiano nessa região e o rosto de nossos destinatários. Partilho com vocês aquilo que sai do meu coração Tuyuka, do meu coração salesiano e sacerdotal.

NOSSOS ROSTOS SALESIANOS À LUZ DO SÍNODO

IMG_2849 (Medium)Quantos anos nós estamos na região Amazônica? Eu descobri que nós não somos tão jovens na região, somos centenários. Alguns assessores me dizem: vocês, salesianos têm muito que contribuir com o Sínodo. Realmente, temos histórias para contar, experiências para partilhar, reconhecer que em muitas coisas não avançamos, também. Eis as nossas histórias: BRASIL: 133 anos (MSMT: 120 anos; ISMA: 103 anos), BOLÍVIA: 122 anos; COLÔMBIA: 128 anos; EQUADOR: 130 anos; PERU: 120 anos; VENEZUELA: 107 anos.

O SINODO NOS INTERPELA!

As histórias centenárias salesianas nos interpelam? O Sínodo exige que nós construamos novos caminhos para Igreja e para a Congregação Salesiana nessa região para e com os povos amazônicos e povos indígenas! O Papa Francisco (15/10/2017) quando convocou o Sínodo apresentou os objetivos: identificar novos caminhos para a evangelização dos povos indígenas daquela porção do povo de Deus, especialmente dos indígenas, frequentemente esquecidos e sem perspectivas de um futuro sereno, também por causa da crise da floresta amazônica, pulmão de capital importância para o nosso planeta…” No dia 8/03/2018 anunciou do tema do Sínodo: AMAZÔNIA novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral.

SIGNIFICADO DO SÍNODO PARA UM TUYUKA

Para mim, o Sínodo Pan-Amazônico é um evento surpreendente! No dia 19 de fevereiro/2018, o Sr. Maurício Lopez (secretário/REPAM) ligou-me comunicando que eu havia sido indicado para ser um dos assessores do Sínodo. Levei um susto, pois participar de um Sínodo era algo que não cabia a mim, um indígena. Apesar de muitas dúvidas/medos acabei aceitando, pois ele não aceitava minhas argumentações para não aceitar. Em seguida veio o tempo de produção de textos a partir de temas indicados na reunião em Puerto Maldonado. Coube-me escrever textos sobre a questão indígena. Escrever em nome dos povos indígenas de uma região foi difícil. Pela plataforma virtual reunimos várias vezes para estudar e melhorar os textos produzidos até chegar a última semana de março quando os textos foram enviados para a secretaria do Sínodo, em Roma. Nos dias 10 e 11 de abril trabalhamos juntos: assessores e o secretariado para concluir o documento a ser apresentado na reunião do Conselho Pré-Sinodal. Dia 12 foi a abertura da reunião. O Cardeal Baldisseri encarregou à equipe de assessores para que apresentassem o documento aos conselheiros. Foram dois dias de reunião (manhã/tarde). O Papa Francisco participou o primeiro dia inteiro e a tarde do segundo dia. Na tarde do dia 13 os Conselheiros aprovaram o Documento Preparatório.

MINHAS EXPECTATIVAS SOBRE O SÍNODO

Marcou-me muito a oportunidade de dizer algo na abertura da reunião do Conselho Pré-sinodal (12/04/2018). Transcrição da fala:

Bom dia! Quero apenas agradecer ao Santo Padre, Papa Francisco. É primeira vez que o vejo de perto. Talvez ele esteja me vendo também. Agradeço ao cardeal Baldisseri, aos meus irmãos e amigos bispos que fazem parte do Conselho Pré-Sinodal e os assessores. Eu estou aqui falando em nome dos povos da Amazônia e em especial em nome dos povos indígenas. Vocês estão vendo que eu sou um único indígena que tem aqui. Um dia, serão mais, um pouquinho mais. Mas hoje esse é o rosto da Amazônia. Quero nesse espírito de gratidão dizer que com o Sínodo sobre a Pan-Amazônia a Igreja está olhando para nós, com o coração voltado para nós e com a mente. Está depositando em nós povos da Amazônia a esperança de receber contribuições importantes para que a Igreja seja cada vez mais localizada e universal. Nós povos indígenas, evangelizados e evangelizadores, hoje temos também como contribuir para o enriquecimento da nossa Igreja. Então, peço que os senhores bispos, o Cardeal Baldisseri e o nosso “papá” Papa Francisco como disseram em Peru, nos olhem como filhos seus, irmãos seus, porque o senhor é irmão maior nosso, o senhor é nosso guia, nosso pastor. Então, todos nós que estamos aqui, através deste Sínodo temos uma oportunidade grande e importante de inovar a nossa Igreja presente na Amazônia. Novos caminhos, quem mora aqui não vão saber quais são os caminhos da Amazônia. Nós que estamos lá podemos dizer quais podem ser os novos caminhos que a Igreja pode percorrer. E, aqui no meu escrito (está escondido), eu também agradeci em nome dos povos indígenas e em nome dos povos da Amazônia à pessoa do Papa Francisco a vida de tantos missionários e missionárias, sacerdotes e bispos que deram suas vidas com a gente, defendendo as nossas vidas e as nossas culturas. Foram martirizados, derramaram o seu sangue para banhar as terras amazônicas. Graças a eles nós podemos dizer que estamos vivos até hoje, porque se não fosse a Igreja, os outros já teriam nos acabado. Claro, a Igreja está presente como irmãos e irmãs, também com suas culturas e suas fragilidades. Muitos chegaram a assumir o rosto amazônico. Muitos missionários mesmo não sendo indígenas assumiram rostos indígenas, aprenderam a falar nossas línguas, aprenderam nossas tradições e não quiseram mais voltar para cá, morreram lá e estão enterrados lá. Graças ao nosso Bom Deus pelo trabalho missionário surgiram muitos leigos comprometidos com a Igreja, como catequistas, como ministros extraordinários da Palavra e da Eucaristia, religiosos e religiosas e sacerdotes. Esse é o rosto que nós temos que oferecer para nós que somos Igreja. Nós estamos lá, mas nós estamos aqui também, no coração da Igreja. Então, vocês aqui e nós lá formamos uma unidade, somos uma família, somos povo de Deus. Espero que vocês Conselheiros do Sínodo não se esqueçam dessa nossa porção do povo de Deus. Os meus irmãos indígenas e os povos da Amazônia esperam muito por esse Sínodo. Nós temos que dar o melhor que podemos para os povos que estão merecendo essa atenção especial. Muito obrigado! Santo Padre, o senhor me abençoe depois!

COMO O SÍNODO PAN-AMAZÔNICO INTERPELA NÓS SALESIANOS E AS SALESIANAS?

Já se passaram mais de 100 anos na Amazônia! Como eram os nossos salesianos e salesianas quando chegaram aqui na Amazônia? Quais eram as motivações, objetivos e práticas? Os povos indígenas eram tão diferentes, também eles com motivações, objetivos e práticas de vida diferente de nós, indígenas de hoje. Após 100 anos muitos salesianos e salesianas são de origem europeia, outros com raízes latino-americanas, uns poucos de origem indígenas. O Papa Francisco, os salesianos, a salesianas e os povos indígenas percebem que cada povo é diferente, com sua capacidade de interagir/dialogar com outros povos em busca do bem viver (tema complexo). Papa Francisco fala de um futuro sereno; os povos indígenas precisam ser os interlocutores principais, para dialogar entre si, com outros povos, com governantes e com os missionários e as missionárias.

NOVOS CAMINHOS PARA A EVANGELIZAÇÃO

As nossas Congregações continuamente refletem sobre a nossa missão no mundo, com as assembleias inspetoriais, capítulos inspetoriais e capítulos gerais; procuramos estar interligados aos documentos da Igreja. Mas é importante nesse momento entrar no espírito do Sínodo Pan-Amazônico: AMAZÔNIA novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral. Nós temos que vestir/revestir-se da AMAZÔNIA como um lugar ecológico, eclesial, antropológico, teológico, filosófico, pedagógico e carismático salesiano. Nós salesianos e salesianas temos um desafio de, a partir do carisma salesiano, apontar novos caminhos para a Igreja, com o rosto amazônico, rosto indígena, rosto juvenil, rosto popular; nos métodos de evangelização, nos conteúdos e práticas de evangelização e educação. Nova dinâmica que devemos reforçar é ouvir/escutar o que os povos amazônicos e os povos indígenas têm para dizer para nós salesianos e salesianas. Nós salesianos e salesianas temos caminhos já acertados e adequados para muitas regiões onde atuamos. O Sínodo nos interpela: esses caminhos possuem rostos amazônicos e indígenas?

ALGUNS DESTAQUES DO DOCUMENTO PREPARÁTÓRIO

IMG_2860 (Medium)O documento preparatório não trata de todos os temas que imaginamos que deveria tratar. Essas ausências serão preenchidas através das contribuições dos grupos, comunidades, dioceses, congregações e instituições que lidam os temas que o Sínodo provoca a pensar. As contribuições precisam ter alcance local/regional e universal, isto é, para toda a Igreja; outros temas para sociedades todas. O Papa Francisco diz: as propostas precisam ser valentes, com ousadia e sem medo! A Família Salesiana precisa entrar dentro desse espírito para ajudar a Igreja, aos povos amazônicos e aos povos indígenas. Numa perspectiva mais concreta vale perguntar: quem somos nós salesianos e salesianas na Amazônia? Quem são os povos amazônicos e povos indígenas para nós? Como as nossas Pastorais, Evangelização, Catequese… Escolas, Faculdades e Universidades trabalham com as questões Pan-Amazônicas: línguas, culturas, conhecimentos, sabedorias, pedagogias, filosofias, antropologias, espiritualidades, teologias, etc.? As respostas devem ser encontradas nas memórias de nossas presenças, crônicas das casas, atas de reuniões, planos de cursos e livros publicados e nas nossas atitudes

I. VER – IDENTIDADE E CLAMORES DA PAN-AMAZÔNIA

Destaco três temas que tratam diretamente dos povos amazônicos e povos indígenas.

Memória histórica eclesial (n. 4):

Fragilidade da defesa dos indígenas (histórias da Igreja). Compromissos da Igreja. Opção preferencial (n. 23); Inferiorização e demonização das culturas indígenas. Compromisso da Igreja. Inculturação. Novos modelos de educação escolar (n. 24); Amazônia é testemunha de fé (n. 25).

Justiça e Direitos dos povos (n. 5)

Perigo de novos colonialismos: destruição das identidades culturais (n. 27); proteção e defesa das características próprias de cada cultura (na sua dinâmica); (n. 28); os povos indígenas organizam processos políticos próprios/com outros; criam agendas baseadas nos direitos humanos (n. 29); proteger os povos indígenas e seus territórios é uma exigência ética fundamental; compromisso básico dos direitos humanos (n. 30)

Espiritualidade e Sabedoria (n. 6)

O Bem Viver: comunhão entre as pessoas, com o mundo, com os seres vivos e com o Criador (n. 31); o Bem Viver: indígenas cristãos partem do Anúncio do Reino para criar a comunhão com as pessoas, comunidades… (n. 32); família indígena: defesa da vida (n. 33); presença de seitas que não favorecem uma ecologia integral (n. 34)

IMG_2830 (Medium)II. DISCERNIR – PARA UMA CONVERSÃO PASTORAL E ECOLÓGICA

O Criador, a Biodiversidade e os Povos vivem na mesma Casa Comum; destruição = morte (n. 45); o processo de evangelização da Igreja na Amazônia não pode ser separado da promoção do cuidado do seu território (natureza) e de seus povos (culturas) (n. 46); em Puerto Maldonado: escuta recíproca entre o Papa Francisco e os povos indígenas (n. 63); a Assembleia Especial para a região Pan-Amazônica precisa de um grande exercício de escuta recíproca: fieis e seus pastores (n. 64)

III. AGIR – NOVOS CAMINHOS PARA UMA IGREJA COM ROSTO AMAZÔNICO

A Igreja e a Congregação salesiana são chamadas a aprofundar suas identidades em correspondência às realidades de seu próprio território e a crescer em sua espiritualidade escutando a sabedoria de seus povos (n. 66); Papa Francisco (EG 198): “é necessário que todos nos deixemos evangelizar por eles”; “não só a emprestar-lhes nossa voz nas suas causas, mas também a ser seus amigos, a escutá-los, a compreendê-los e a acolher a misteriosa sabedoria que Deus nos quer comunicar através deles” (n.75); o perfil profético da Igreja, hoje, mostra-se através de seu perfil ministerial e participativo, capaz de fazer dos povos indígenas e das comunidades amazônicas “os principais interlocutores” (LS 146; n. 79); também é necessário promover o clero indígena e os que nasceram no território, afirmando sua própria identidade cultural e seus valores (n. 81); missionários autóctones e os missionários vindo de fora: interculturalidade, comunhão, espiritualidade, diálogo, simplicidade, profetismo, aprendendo a cultura do outro…. (86-88)

FECHANDO A CONVERSA

Papa Francisco: “ajudai os vossos Bispos, ajudai os vossos missionários e as vossas missionárias a fazerem-se um só convosco e assim, dialogando com todos, podeis plasmar uma Igreja com rosto amazônico e uma Igreja com rosto indígena (n. 89)

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